sábado, 24 de maio de 2008

O outro lado do espelho

Quando entrei no quarto ele estava em frente ao espelho, perscrutando a imagem refletida. Levantava uma mão e acena para si mesmo, mais estudando os movimentos do que propriamente se cumprimentando. Dei uns minutos até me fazer perceber.

— Bom dia, Seu Antônio.

—‘Dia, doutor.

— Tudo bem?

— Tudo. O doutor já percebeu uma coisa? Olha só.

Deixei a prancheta sobre a cama e me aproximei do paciente, preenchendo o restante do espelho com o meu reflexo. Ele acenou para as imagens novamente.

— Viu? Ele é canhoto. Eu sou destro mas o meu reflexo é canhoto.

— Ele não é canhoto, Seu Antônio. É só um reflexo.

— Não. Eles são todos canhotos.

A ênfase no todos, demorando para terminar a palavra, já prenunciava que eu teria mais um consulta daquelas.

— Eles? — Tive que perguntar.

— Os reflexos! E eles já estão entre nós, misturados com a gente e a gente nem percebe.

— Os reflexos? Do espelho?

— Eles já não estão só no espelho. Veja! Nós somos todos destros. Os reflexos é que são todos canhotos. Mas eles estão vindo para o nosso lado, tomando o lugar. Eles estão planejando uma invasão!

— Os reflexos ou os canhotos? — Perguntei já ficando meio preocupado.

— Todos os canhotos são reflexos! Eles descobriram um jeito passar para o nosso lado e daí nos aprisionam do outro lado. Eles estão trocando de lugar. Enquanto as pessoas de verdade ficam presas no outro lado do espelho, os reflexos estão aqui. Entre nós. Se preparando para dominar a gente! Os reflexos estão entre nós!

Ele já estava ficando agitado demais, então tive a desculpa para aplicar-lhe uma injeção calmante. Para ajudá-lo a descansar, afirmei. Preparei uma seringa cheia e apliquei-lhe sobre alguns queixumes. Quando apliquei a segunda, ele estranhou o aumento da dosagem. Mas afirmei que era só porque ele estava muito agitado e precisava dormir. Só na terceira dosagem ele percebeu que o êmbolo descia sob a pressão do meu polegar esquerdo.

Ele sabia demais.

Afastou-se assustado, cambaleando com pernas frouxas, já apresentando os efeitos da droga. Olhos esbugalhados, correu até o espelho, mirando-se uma última vez. Lá dentro viu a minha imagem, por sobre seu ombro, despedindo-se com um aceno da mão direita.

4 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

ok, eu confesso: o verdadeiro Félix está preso no espelho do banheiro!

rodrigo sempre com idéias muito imaginativas, não é a toa que era o mestre titular!

fabioricardo disse...

droga! Félix, ele descobriu o nosso segredo!
pegue as seringas!

Daniel Viccari disse...

O Rodrigo e o Floriano mandaram muito bem.

Mas voto no Rodrigo, sobretudo pela criativade.

Floriano disse...

Vocês e o Ned Flanders...