segunda-feira, 5 de maio de 2008

A Paz

Fábio Ricardo
04/05/08


Os óculos escuros já não eram o suficiente para conter a luz que vinha da janela, e os olhos azuis, quase brancos, ardiam com a claridade. O ruído dos carros e dos transeuntes passando na rua o enojava, com todos aqueles olhares inquisidores e risos escondidos, desdenhando de sua aparência monstruosa. Ele só queria ser normal, desde pequeno, quando a doença começou a se desenvolver e apresentar manchas brancas que aos poucos tomaram toda a sua pele.

Ele não queria mais ver as pessoas, ouvir suas risadas, sentir o cheiro de suor dos trabalhadores que podiam atuar em qualquer profissão, enquanto ele nunca podia sair de dentro do escritório, evitando os nocivos raios de sol. Tentou morar no campo, longe das pessoas, mas o horário de funcionamento do comércio não era compatível com suas fugas dos raios solares. Em meio a pensamentos confusos, parou em frente à porta e checou o número. Quarto 902.

Entrou, fechou a porta e todas as cortinas, apagou as luzes e simplesmente sentou num canto, encostado na parede. Tentou bloquear em sua mente os sons vindos da rua, o cheiro de almoço vindo do apartamento ao lado, o choro de criança vindo do andar de cima, a claridade que ultrapassava o tecido das cortinas e o irritante carpete marrom, que fazia sua frágil pele coçar.

Não agüentava mais. Pegou a chave do quarto e escreveu com força na tinta da porta 902: “Eu só quero silêncio, eu só quero paz!”. Essa seria sua carta de despedida. Correu em direção à janela, respirou fundo e abriu a cortina. O sol forte o cegou e o impulsionou para a parede oposta. Mas não era uma simples claridade que o impediria de cometer tal atrocidade contra sua própria vida. Passou a vida inteira ouvindo risadas sobre suas incapacidades, mas ele não aceitava ser novamente este incapaz, ao lançar-se do nono andar de um quarto de hotel, rumo ao chão sujo e cheio de pessoas.

Pegou distância, cerrou os olhos e correu em direção à janela. Seu joelho atingiu a pequena mesa de centro, seu corpo precipitou-se contra a lateral do sofá e sua cabeça atingiu com força o batente da janela, aberta à sua frente. Perdeu os sentidos por um longo tempo, e quando acordou, estava em paz.

A sua visão estava turva, impossibilitando os raios de sol de cegarem seus olhos, já desprotegidos pelos óculos estilhaçados num canto qualquer. Tateou o rosto e sentiu o nariz retorcido, inundado em sangue, e reparou que o cheiro repugnante do feijão já não o incomodava mais. Podia sentir o sangue escorrendo por seus ouvidos, deixando o som do trânsito cada vez mais distante. Repetia consigo mesmo duas palavras: a paz, a paz, a paz...

Ficou deitado por muito tempo, até não ouvir mais ruído, não ver mais a luz do sol, não sentir cheiros. Suas pernas, que por muito tempo formigavam, já não sentiam mais nada. Ele sentia-se no paraíso. Aquele silêncio era tudo o que ele procurava durante todos os dias de sua vida. Ao tentar se matar, ao invés de cair, foi aos céus. Sentia-se um anjo, que não sentia fome, não sentia medo, não sentia dor. Sentia apenas uma paz maravilhosa se apossando de seu corpo. E o quarto 902 tornou-se seu paraíso particular, enquanto padecia na mais consoladora paz que já existiu.

Um comentário:

Félix B. Rosumek disse...

é, aparentemente, quartos induzem à morte, loucura, suicídio. ainda bem que moro numa quitinete, a presença de uma geladeira barulhenta é tão consoladora...