domingo, 25 de maio de 2008

Visão ancestral

25/05/08


O vento uiva forte entre os picos nevados da titânica cordilheira. Onde terras colidem e se moldam de acordo com forças implacáveis, abrem-se penhascos temerosos, erguem-se paredões ciclópicos e tapetes esbranquiçados derramam-se pelas fendas. Entre rochas tão antigas quanto o tempo, abre-se uma caverna, profunda garganta estendendo-se ao coração da gelada montanha. Lá, as paredes se recobrem com carapaças de gelo, e a gruta cintila ante os poucos raios de luz que se atrevem a perscrutar seus segredos. Quando a massa de terra se aproxima de seu pai celeste, poucos graus de diferença fazem a caverna transpirar, gotejando em ecos pelas galerias insondadas. Mas, em breve, novamente o sol mingua e a umidade cristaliza em dentes e espelhos, seguindo seu ciclo natural.

Aquilo que na caverna repousa, entretanto, dificilmente seria considerado algo natural. Em meio a uma penumbra quase viva, que ruge, uiva e assobia, permanece lá, parado, ante uma colossal muralha de gelo. Longe de qualquer coisa considerada viva, ou sensciente, sem estar próximo, ou distante, de qualquer entidade remotamente próxima. A própria montanha cora, em vergonha juvenil, ante o que abriga em seu interior. Um pária, deslocado por sua perenidade em um mundo de coisas efêmeras.

Sua atitude não é outra senão indiferença, fitando em estase a imagem refletida no gelo. O único lampejo de familiaridade onde tudo o mais lhe é estranho, caminhos distintos de uma evolução cega em um universo insano. Não que aquela imagem fosse causar indiferença em qualquer olhar que nela pousasse. A mais perturbadora das visões é aquela que fala de eras estranhas e paisagens incognoscíveis, éons e distâncias avassaladoras para entes de mente estreita e curta existência. Confrontados com uma abominação de eras esquecidas, tudo o que lhes parece sólido, concreto, certo, é destroçado em cacos de incompreensão e desespero, pois têm consciência de sua ignorância e mediocridade ante dimensões muito além de sua pobre imaginação. Para esses, nada mais pode ser extraído daquele reflexo que medo, horror e loucura. O seu dono, porém, tem ali sua única companhia, onde permanece em silencioso devaneio, entre vagas memórias de um tempo além do tempo. E, quando o gelo vira água e o espelho se torna rocha, ele permanece no mesmo estado, solitário, apenas esperando o que lhe são instantes, fugazes segundos antes da parede congelar de novo.

Aqueles poucos que nas montanhas vivem da caverna não ousam se aproximar. Seja considerada divina ou amaldiçoada, por ali acham melhor não passar. Dizem que, assim como mortos deuses esperam sonhando nas profundezas do oceano, também nas alturas do mundo se escondem coisas que é melhor não descobrir, vindas de lugares e épocas ignotas, e cuja simples menção em tomos ancestrais causa arrepios e pesadelos nos mais sensíveis. E mais de um sábio transtornado já se aventurou nos cumes em busca de conhecimento proibido, apenas para pelas montanhas (ou outra coisa, sussurram) ser devorado.

Alheio a tudo isso, ele permanece na caverna. Sua paciência é infinita, pois mais de uma estrela já morreu sob seu olhar. Espera os astros dançarem e certas forças do universo se ajustarem, para, quem sabe, retomar aquilo que já teve e ser aquilo que já foi. Muito mais do que uma imagem distorcida fracamente refletida em uma parede de gelo. Uma aberração grotesca despida de glórias passadas, enclausurada nos confins extremos de um mundo que não é seu.

3 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

adjetivos!!! ;)

Rodrigo Oliveira disse...

Me lembrou Lovecraft. O estilo e o ritmo, em todos os casos. E o cenário relembrou alguma coisa de As Montanhas da Loucura tb. Mas o toque de deixar meio não revelado foi destoou do HP. Interessante.

Félix B. Rosumek disse...

sim, é bem lovecraft. e não só na parte estilística...

“Em sua casa em R’lyeh, o morto Cthulhu espera sonhando.”