terça-feira, 13 de maio de 2008

Relatividade

13/05/08
De um momento para outro, um ponto brilhante se tornou visível no solo do planeta desolado. Com o passar das rotações, foi se tornando mais forte, e em um dado momento passou a acompanhá-las, progressivamente se aproximando do planeta. Finalmente, sua órbita o deixou próximo o bastante para uma mudança inesperada de rumo. Uma parte se destacou e perdeu-se no espaço, enquanto a outra se dirigiu velozmente à superfície. Sem clarões ou estardalhaço, pois a atmosfera era rarefeita demais para opor alguma resistência ao objeto. Sua velocidade foi diminuindo e a trajetória sendo ajustada por curtos jatos de matéria, expelidos por pontos estratégicos em sua estrutura. Por fim, com um impacto considerável, tocou as rochas inertes e parou.

O objeto se assemelhava a um grande cilindro metálico, com diversas suturas e orifícios por toda sua superfície. Permaneceu inativo por alguns instantes, antes de ser tomado por frenética agitação. Um painel se estendeu do interior, captando a pouca luz que recebia da estrela próxima. As suturas se abriram, revelando uma profusão de instrumentos, incluindo uma longa haste voltada para o céu. Embora o conjunto parecesse extremamente frágil em meio à vastidão, mal se mexia. Ali não havia ventos para pressionar e torcer estruturas delicadas.

Imediatamente, uma enxurrada de informações começou a se deslocar dos sensores para a célula de armazenamento. O planeta carecia de atmosfera densa, envolvido apenas por uma leve aragem de hélio e outros gases leves. Uma perfuratriz penetrou no solo, descobrindo grande riqueza de sílica, ferro e chumbo, com baixos teores de carbono, nitrogênio e oxigênio. Uma grande lente transparente registrou a paisagem, monótona e desprovida de acidentes. Nenhum despenhadeiro, cordilheira ou vale, apenas grandiosas e ocasionais crateras, cicatrizes de antigos golpes astronômicos. Combinada com a ausência de intempéries, a crosta plana indicava baixíssima atividade geológica no interior. Os dados se acumularam na célula e, num momento posterior, quando a rotação deixou a antena alinhada para um determinado setor no céu, jorraram rumo ao vácuo, para uma longa e fria jornada.

O tempo passou. Nenhuma mudança foi percebida, fora as variações esperadas pelo girar do planeta em torno de si mesmo e da sua estrela-mãe. Num ponto extremamente distante dali, há anos no futuro, o planeta foi considerado morto, e as informações provenientes da sonda se tornaram apenas mais uma entrada num banco de dados, processadas por um sistema automático. Ela seguiu seu trabalho, impassível, por mais algumas dezenas de translações, antes de um pequeno dispositivo cessar seu funcionamento e o painel deixar de captar energia. Afora uma pequena luz vermelha que se apagou em um instrumento, o objeto permaneceu o mesmo, enquanto o planeta seguia seu moroso caminho em torno da estrela. Dezenas de vezes. Milhares. Milhões.

* * *

Uma suava mudança ocorreu no arranjo de cristais de um veio mineral.

- Ei, Drark, percebeu alguma coisa?

- Não, Zetsz, o que foi?

- Nada, só uma coceira na cabeça.

- Que estranho. Ainda está aí?

- Não, durou só alguns instantes.

- Então relaxa. Não há de ser nada.

- Será que alguma coisa caiu em cima de cim?

- Cair? De cima? Você está delirando, Zet.

- Não, eu poderia jurar que sim. Vou ali dar uma verificada.

- Que perda de tempo... Mas tudo bem, eu te espero.

Zetsz deparou-se com o bizarro objeto metálico, diferente de tudo o que já havia percebido. Intrigado, resolveu investigar mais a fundo. Porém, durante sua pesquisa, percebeu que a energia vinda da estrela começou a crescer, a uma velocidade realmente alta. Alarmado, resolveu abandonar a curiosidade e ir avisar Drark. Antes de conseguir chegar, a estrela explodiu e se tornou supernova, engolindo o planeta. E a sonda. E Zetsz.

2 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

não tive tempo para revisar aqui em BH, então vai caubói mesmo...

Félix B. Rosumek disse...

ah, percebi que a parte do "científica" desta ficção ficou um pouco pesada, se alguém não entender nada, peça ajuda aos universitários! :)