terça-feira, 6 de maio de 2008

Segredos do 903

Já não agüentava mais de cansaço. Depois de uma viagem difícil e de um trabalho extremamente tenso, entrou no hotel pensando no que fazer para se livrar daquele peso. Entrou no quarto. Achava o máximo deixar tudo bagunçado e, como num passe de mágica, tudo aparecer organizado e limpo. Olhou para o frigobar. Já sabia o que fazer. Ninguém saberia e o faria bem. Algumas horas e a placa com o indicativo 903, agora trêmula, era a única que ouvia suas amarguras.

Tinha sido tudo extremamente planejado. Ela sairia de casa, diria para a mãe que dormiria na casa de uma amiga, e ele estaria esperando na hora marcada na esquina de casa. Ela tinha 14, ele, 25. A reserva tinha sido feita há alguns dias e a expectativa consumia ambos, numa espécie de contagem regressiva para, então, consolidarem o amor que sentiam. Tudo correu bem. Quando virou-se para ir embora, ela olhou para trás. Não queria esquecer jamais a porta com o número 903.

Demorou algum tempo para encontrar no molho de chaves a que abriria aquela porta. Respirou e manteve a calma, afinal de contas, era hoje. O papelzinho colado na chave indicava a porta 903. O zelo ao entrar não lhe era peculiar, e ao lembrar disso ela sorriu pensando que jamais desconfiariam. Como, de fato. Já no criado-mudo ao lado da cama, correntes de ouro e relógios que foram pegos. Nas malas, roupas de valor, sapatos, cintos. A sacola cheia, fechou a porta e foi-se embora.

“Vai lá e me espera. Quarto 903”. Quando o telefone tocava, ela quase comemorava, num misto de susto, tesão e uma alegria profunda. No fundo, ela acreditava que esse jeito bronco e rude dele era o que há atraía há mais ou menos uns três anos. Como sempre, chegou no quarto, tomou seu demorado banho, vestiu a lingerie que carregava na bolsa só pra ele. Deitou-se na cama, acendeu um cigarro e esperou.

Elas eram só uma mistura de cimento, tinta e tijolos. Não podiam dizer de todos gritos, sussurros e roncos que já ouviram. Eram visitadas nos mais diversos períodos do dia, já perderam a conta de quantas vezes um rosto diferente entrara ali e também da quantidade de vezes que deram graças aos céus por elas não falarem. Elas sabiam de segredos que ninguém jamais supus. Elas eram as paredes, as paredes do quarto 903.

3 comentários:

Fábio Ricardo disse...

Tá bom, vou fingir que ali tá escrito 902.

Félix B. Rosumek disse...

achei difícil seguir o texto, tive que ler umas duas vezes. acho que ficou um pouco confuso...

Rodrigo Oliveira disse...

eu gostei, desenvolveu bem. na segunda leitura fluiu melhor pela fragmentação da história, mas não achei isso ruim. agora o 903... nem pra ler o tema direito... tsc tsc :p