quinta-feira, 15 de maio de 2008

Segunda Vida

Fábio Ricardo – 15/5/08

Fabíola Willow atraía todos os olhares por onde passava. Linda, não andava, desfilava. Chamá-la de linda, porém, não seria compatível com sua verdadeira beleza. Fabíola Willow era maravilhosa, estupenda, uma divindade.

Suas curvas perfeitas foram desenhadas cuidadosamente por um artista, seus longos cabelos louros balançavam ao vento, tão lisos quanto nenhuma chapinha poderia criar. Os pés, num salto alto absurdo, eram pequenos e delicados, que não pareciam conseguir sustentar todo o seu 1,78m de altura. Mesmo assim, ela desfilava, deslumbrante, pelas avenidas, atraindo olhares, piscadelas, sorrisos e cantadas. Não havia sequer uma pessoa que não torcesse o pescoço quando Fabíola Willow passava. Os homens, para admirar seus mais diversos ângulos, as mulheres, para destilarem seu veneno sobre a artificialidade de sua forma física.

Seu perfil denunciava: Fabíola fugira de casa aos 16 anos, e a única forma que encontrou para se sustentar foi como dançarina de cabaré. Ela gostava de dizer “dançarina de cabaré”, mesmo todos sabendo o verdadeiro significado de sua prostituição. Mas a realidade é que a beleza de Fabíola não surgiu com o passar dos anos, acentuando suas formas femininas ao final da infância. A beleza de Fabíola era toda artificial, implantada.

O quadril foi desenhado meticulosamente, sem nenhum defeito, assim como os seios avantajados, apontados para os céus. A pintinha que trazia ao lado da boca também era artificial. Foi colocada ali justamente para dar um charme a mais, modificar o rosto perfeito e torná-la mais humana. Tudo para ajudar Fabíola na diversão de conquistar e dominar os homens.

Ela entrava em suas mentes, dominava por completo seus instintos e os fazia urrar de prazer, enquanto tremiam em suas salas de luzes apagadas. Ao final do encontro amoroso, ela deixava um beijo no espelho do banheiro e sumia com suas carteiras e senhas de banco.

Não que Fabíola precisasse disso para viver ou se sustentar. Fabíola era Miss South America, ganhava rios de dinheiro para vestir marcas famosas ou comparecer em inaugurações de lojas e coquetéis. Ela disputava o Miss World com outras cinco concorrentes e era sem dúvidas a mais bela de todas.

Mas enquanto passeava calmamente pelas calçadas de sua ilha favorita, nos dias de sol seguidos, sempre perfeitos e sem nuvens no céu, Fabíola tinha que sustentar a razão de sua existência. Seu cafetão, seu dono, seu mestre. Por onde Fabíola ia, rebolando ao som de uma música que só ela ouvia, Rafael ia atrás. Todo homem que Fabíola conhecia em seus passeios noturnos, Rafael anotava seus nomes, telefones e IPs.

Todo momento de intimidade que ela dividia com suas vítimas era monitorado de perto pelo rapaz de pele clara, cabelos ruivos, barriga sobressalente e óculo de aro. Rafael a acompanhava por onde quer que fosse. Escrevia seus discursos e decidia por ela qual a melhor resposta para a ocasião. Era ele que escolhia suas roupas, o seu penteado, o tom de seu bronzeado e até mesmo o tamanho de seus seios.

Era ele que invadia as contas bancárias reais dos relacionamentos virtuais que sua Fabíola Willow mantinha. Era ele que transformava noites de prazer em dinheiro para novas placas aceleradoras e monitores de LCD. Era ele que ria às custas dos solitários virtuais, e que passeava pelas praias mais cobiçadas do mundo, com um biquíni minúsculo, atraindo olhares e desejos, da cadeira envelhecida do seu quarto, enquanto sua mãe dormia a poucos metros dali.

4 comentários:

Félix B. Rosumek disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Félix B. Rosumek disse...

bem, esse mundo virtual poderia ser em qualquer planeta, claro, mas dá a entender que se passou na terra de qualquer modo, mesmo sendo gerado por elétrons correndo dentro de chips e cabos de rede. faltou uma conexão mais clara com o tema.

Fábio Ricardo disse...

na real, nos marcadores colocasse como "conto extraterrestre", mas no tema não especificasse isso, deixasse apenas com não sendo na Terra. Achei que um conto que se passasse no universo virtual se enquadraria no tema.

Thiago Floriano disse...

pra acabar com a briga...

ex.tra.ter.res.tre
adj m+f (extra2+terrestre) Que está, ou se origina, fora da Terra; extratelúrico, extraterreno.

AHAHAHAHAHAHAHAH...
abraços terrestres