domingo, 24 de fevereiro de 2008

Corpos

Félix B. Rosumek
26/06/06

Com a arma pendendo debilmente entre os dedos, ele cambaleava pela devastação, onde a morte fizera sua mais insana orgia. Corpos se espalhavam até onde a vista alcançava, cobrindo a grama, escondendo o solo, imersos em um oceano de vinho humano. Um manto de cadáveres cobria colinas e planícies, rochas e ravinas. Fumaça se erguia de onde carne fora queimada. Silêncio absoluto.

Ele era a única coisa viva ou morta que no campo se movia. Nem homens, nem abutres, nem ventos. Só ele e os corpos. Corpos por todos os lados, mutilados de todas as formas, sangrando por todos os meios. Crânios deformados. Ventres abertos. Troncos esmagados. Membros decepados. Contusões. Cortes. Perfurações. Mortes.

Ele tropeçava entre pedaços daqueles que um dia já respiraram, amaram e lutaram. Lutaram por aquilo que acreditavam, ou por aquilo que os obrigaram a acreditar. Lutaram sem parar, lutaram sem pensar. Lutaram e mataram. Lutaram e caíram. Lutaram e morreram. Amigos. Inimigos. Desconhecidos. Corpos.

Sob nuvens vermelhas de um dia agonizante, sobre mares rubros de uma terra embriagada por sangue, ele caminhou. Banhado em carmim, transbordando em almas ceifadas. Vazio. Morto, vivo, ou qualquer coisa entre os dois. Caminhou sem rumo, para destino algum, para onde os corpos se espalhavam. Para onde os corpos se confundiam ao longe. Para onde os corpos jamais findavam. Infinitos corpos caídos, e apenas um ainda se arrastando para o horizonte.

8 comentários:

Rodrigo Oliveira disse...

Mortos-vivos vivos são interessantes, rendem umas boas reflexões e ainda cheiram melhor que os mortos-vivos mortos. E curti as cenas, bem cinematográfico. E o uso do pontos tb achei bem legal. Deu um ar de estocada, como os golpes que derrubaram os corpos. Curti.

Félix B. Rosumek disse...

interessante o rodrigo falar do "cinematográfico", pois a idéia realmente surgiu da cena de abertura do "exorcita - o início". o filme é meia boca, mas aquela abertura é genial!

Daniel Viccari disse...

Concordo, mas, inicialmente, lembrei de "Resident Evil" pelos corpos e, depois, de "Eu sou a Lenda" pelo silêncio, embora não houvesse paisagem alguma, nada além de corpos.

Fábio Ricardo disse...

Concordo com a associação com "Eu sou a lenda". Apesar do tema nao ter nada a ver (tá, tem a ver, mas nao nessa parte q lembrei agora), me pareceu muito com as cenas iniciais do filme, dele sozinho pela cidade, tudo vazio e sem vida por todos os lado onde andava.

Félix B. Rosumek disse...

obviamente todos notaram que esse conto foi escrito cerca de uma ano e meio antes do filme... e cinquenta e dois anos depois do livro! :)

Thiago Floriano disse...

cara... qdo li "um oceano de vinho humano" já me assustei... mas qdo chegou em "uma terra embriagada por sangue" percebi que a sacada foi muito boa!

Thiago Floriano disse...

ps: acabei de ler o comentário do viccari, portanto, não influenciou meu texto... ahahha

Vivi disse...

Gostei bastante do conteúdo e da forma. Como foi observado, o uso dos pontos dão ritmo e clareza ao texto tornando vívido o cenário dos vergões, cortes e golpes relatado. O final em que designa o protagonista como “mais um corpo entre vários” é pertinente. O sentido de coisificação fica impresso pelo fator bestial da guerra. Então interpretei que o verdadeiro protagonista da história é a guerra, a batalha. O homem zumbificado seu coadjuvante. Show de bola!