sábado, 2 de fevereiro de 2008

Sete

Marina Melz
02 de Fevereiro de 2008

O que mais me enoja é ela. Ela que surge em mim quando visto a mais sexy lingerie, o mais provocante vestido, a mais perfeita maquiagem e me olho no espelho. Sinto uma auto-suficiência que pode ser efêmera, mas é, de fato, emocionante. As sete letras do “eu me amo” soam como música. Ah, a vaidade.

O que mais me assusta é ela. Ela que surge quando você, que se contenta com um emprego qualquer, percebe que a sem-cérebro da sua turma ganha do triplo que você. Ela que volta quando você percebe que o seu cara está com a gostosa do corpo violão. As sete notas musicais soam como você queria roubar a vida dela pra você. A inveja é incontrolável.

O que mais me persegue é ela. É o que eu sinto com grande parte das pessoas – especialmente as humanas. É o ódio desde por quem rouba o meu país, passando por quem ousa me julgar, até quem me irrita (às vezes só por existir). Ah, se eu pudesse colocar sete palmos abaixo do solo esse tipo de gente. Ira? Apenas um leve desgosto por algumas pessoas.

O que mais me atinge é ela. Sagrada parceira de pós-refeições do final de semana, de sonecas repetitivas pela manhã. É ela quem faz pintar o sete com os pés, mas só se forem bem pro alto, com um travesseiro bem confortável e sem hora pra acordar. Preguiiiiiiiiiiça.

O que mais me irrita é ela. É a cegueira emocional e a cobiça material. Costumo suspeitar de grandes carros, grandes mansões, grandes poderes. Geralmente por trás deles há pequenas almas. Nem uma das sete artes suportaria tamanhos megalomaníacos materiais. Insuportável avareza.

O que mais me agrada é ela. Ela é quem me sacia minhas ânsias mais profundas, é ela quem me completa quando sinto um buraco – seja no estômago seja no peito. É ela quem me faz esquecer todos os suores, todos os integrais, todos os esforços. É ela quem me faz enxergar no final das sete cores do arco-íris um pote de brigadeiro. E viva a gula!

O que mais me choca é ela. É a completa perseguição aos prazeres carnais, sexuais. É o que atinge a todos, alguns com mais veemência que outros. É ela quem mostra a magia, o desejo e o prazer abaixo dos sete véus. Luxúria, meu bem!

5 comentários:

Fábio Ricardo disse...

o melhor foi o da gula... cobrindo o buraco que temos, tanto no estômago quanto na alma. Mas não é aquele buraco quente não, viu Félix?

Félix B. Rosumek disse...

olha, o buraco do estômago também é quente, mas aquele ao qual eu me referia certamente fica um pouco mais adiante no trajeto...

Félix B. Rosumek disse...

curioso, eu ainda não tinha percebido que todos os sete pecados são substantivos femininos...

Thiago Floriano disse...

é que a culpa de tudo é delas... nunca tinha percebido também...

Félix B. Rosumek disse...

mas como falamos ontem, também notei que as sete virtudes também são substantivos femininos: castidade, generosidade, temperança, diligência, paciência, caridade, humildade...