quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O grande torneio

Félix B. Rosumek

14/02/08


Naquele salão, todos jogavam. Era um longo torneio, onde os melhores jogadores seguiam adiante. Os outros saíam, frustrados, para embebedar-se e jogar-se nos bancos, lamuriando sobre as glórias de conquistas passadas. Além dos gemidos e brados embriagados, alguns ainda guardavam algumas parcas fichas e jogavam duelos paralelos, na esperança de um dia conseguir voltar ao jogo principal.

Alheios aos lamentos, os jogadores da mesa do centro estavam concentrados nos movimentos dos oponentes. O primeiro era um ancião de longas barbas e olhar severo. Ao seu lado, um jogador mais jovem, cujos traços fisionômicos revelavam a relação com o ancião, seu velho pai. Do outro lado da mesa, uma exótica figura de barba curta e turbante. Embora os trajes o diferenciassem e fosse o mais jovem, um observador atento logo enxergaria os traços de semelhança com os outros dois. A tensão entre os três jogadores era evidente: laços de parentesco e jogos arriscados não combinam. Alheio a tudo isso, a mesa era completada por um pequeno e franzino jogador, cujas rugas profundas no rosto imberbe atestavam sua incrível idade.

A rodada estava tensa: após a desistência de dois jogadores, o ancião encarava seu oponente. Este havia começado a rodada inocentemente, apostando baixo, para agora bradar com as fichas que sua mão escondia um jogo de peso. O ancião, com uma razoável trinca de ases na mão, via sua vitória fácil se transformar em uma arriscada contenda contra o mais jovem. Tentava ler o seu olhar, mas os olhos que despontavam por baixo do turbante nada lhe revelavam, além de uma intencional zombetearia. Por fim, o velho resolveu igualar a aposta. Baixou seus três ases. O outro fez uma expressão duvidosa. Baixou uma trinca de setes. O pequeno momento de alegria do ancião só durou até o homem de turbante baixar, com um amplo sorriso, seu par de valetes, espadas e ouros. Puxou a grande pilha de apostas para si, uma vitória pelo qual há tempos ansiava.

Uma nova rodada se iniciou. Logo, as apostas começaram a subir. O primeiro a sair foi o homenzinho. Olhando para sua pequena pilha de apostas e sua mão nada promissora, coçou o pequeno pingente na testa e resolveu desistir diante das altas apostas do homem de turbante. O ancião foi o próximo, ainda abalado pela arrasadora derrota. No momento em que ele jogou suas cartas na mesa, os jogadores restantes se encararam. Não havia espaço para sorrisos ou truques ali. As faces eram pétreas. Apenas os olhos faiscavam, cada um tentando fulminar o oponente. Sem desviar o olhar, o filho do ancião aumentou a aposta. O outro nem se preocupou em olhar quanto. Empurrou toda sua imensa pilha de apostas para o centro da mesa. "Tudo ou nada", bradou. O ancião e o homenzinho gemeram.

O rapaz titubeou. Parou. Pensou. Quase arremessou as cartas na mesa. Mas por fim, suspirou profundamente e com raiva. E aceitou a aposta. A pilha no centro da mesa dobrou de tamanho. Para um deles, a partida acabaria ali.

O homem de turbante exibiu duas de suas cartas: os mesmos dois valetes que haviam lhe dado a vitória anterior, espadas e ouros. O outro entrou no jogo e mostrou duas de suas cartas, nada mais que um dez e um nove de paus. A expressão do homem de turbante suavizou quando baixou convicto mais uma carta: o valete de copas. O outro mostrou a dama de paus. O homem de turbante tentou se mostrar feliz com seu jogo, mas não havia mais em sua mão: um ás e um oito. O filho do ancião baixou mais uma carta. "Eis o valete que faltava", falou.

E com calma, suavidade e o mais cruel dos sorrisos no rosto, empurrou o rei de paus para o centro da mesa...


Na Terra, a tensão entre israelitas e palestinos chegou a níveis insuportáveis. Com o massacre palestino que adveio, os iranianos se uniram à Síria e Jordânia para arrasar Israel. Aproveitando o caos político, o Paquistão atacou pesadamente a Casimira, e após uma vitória sangrenta, assinou um tratado de paz com a Índia, que se retirou do conflito. O governo americano não hesitou em intervir, enxergando ali a possibilidade de uma intervenção definitiva no Oriente Médio. A provocação foi mais do que suficiente: comandada pelos aiatolás do Irã, a coalizão declarou guerra santa, recebendo adesões de fanáticos por todos os lados. Os Estados Unidos declararam guerra e finalmente movimentaram todo seu imenso poderio militar, incitados pelo discurso de Deus e liberdade do seu presidente. Numa desesperada última tentativa, os iranianos ameaçaram usar seu arsenal nuclear que, sim, diziam, eles sempre mantiveram, mas estava bem escondido. Sem dar ouvidos a ameaças ou à ONU, os Estados Unidos completaram a devastação e ocuparam todos os territórios conquistados. O resto do mundo saía da inércia e tentava pensar no que fazer, enquanto as tensões ocultas estouravam, as forças se desequilibravam e a remanescente massa islâmica se voltava contra o mundo cristão. Era o crepúsculo da Era da Democracia, e um novo rei ascendia no mundo dos homens.

3 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

ps: eu odeio editores de texto de blogs. ou eles que odeiam o word. sei lá.

Thiago Floriano disse...

acredito que, na verdade, o editor do blog faz isso só pra identificar quem não é da área de comunicação... sei lá

Fábio Ricardo disse...

Sei que é teu estilo, e não quero que o mudes, mas ainda acho que o texto bom muitas vezes não precisa de explicação. Como fazer isso? Não sei. Se soubesse, talvez o meu texto seria bom, hehehe.