segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Do outro lado

Fábio Ricardo
25/02/08


Senti meu corpo sendo dilacerado quando passava pela cerca de arame farpado que circundava a propriedade. Restos de carne e podridão eram arrancados dos corpos fétidos ao meu redor. O cheiro era repugnante quando as carnes se desprendiam dos corpos e caiam pelo caminho. Além do arrastar de membros, só se ouvia o choro baixinho de uma criança, vindo de dentro do velho hangar para onde nos dirigíamos.

Ouvi um tiro sendo disparado e pude ver quando a bala se alojou no crânio da criatura pouco atrás de mim. Seu corpo caiu sem reação e toda a parte frontal de seu rosto desapareceu. Mesmo assim, ele ainda se levantou cambaleante e voltou a caminhar com passos pesados.

Faltava pouco para amanhecer, mas mesmo assim todos continuavam avançando através do portão de madeira do velho hangar. Um homem tentava se esconder atrás de um caixote com uma criança em seus braços, enquanto outro se portava à frente deles, com uma espingarda de caça em mãos.

Não sei por que andávamos em sua direção, muito menos o que eu estava fazendo lá. Apenas me lembrava que há poucas horas eu estava ao lado daqueles homens, com minha filha nos braços e fugindo daquelas terríveis criaturas. Eles conseguiram correr pelo descampado para escapar da horda de zumbis. Eu não. Eu fiquei para trás e ouvi quando gritaram meu nome, sabendo que não havia mais nada que pudessem fazer por mim. Agora, apesar de eu tentar parar, meu corpo não mais me obedece. Apenas caminho enquanto minha consciência vai se perdendo a cada momento que passa. Lembro de quando senti os dentes podres daquelas criaturas atravessando os músculos de minhas costas, e suas garras rasgaram a pele de minha face. Meus amigos nada puderam fazer para evitar, apenas levaram minha filha para longe de mim.

Eu não sentia raiva, não sentia tristeza, não sentia remorso. Sentia apenas um apetite incontrolável pelo gosto de cérebro humano.

6 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

ouié! o terror invade o duelo! com todo respeito ao humor e ao cotidiano, claro... mas diversidade de gêneros sempre é bom!

Félix B. Rosumek disse...

essa coisa das pessoas terem que lidar com seus próprios entes queridos "zumbificados" é uma das partes que acho mais legal das histórias de zumbi. cria uma atmosfera pesada, tornando-as muito mais do que as meras histórias de pessoas correndo de monstros. mas a parte dos cérebros acho que ficaria melhor num filme trash mesmo... :)

Cris Costa disse...

A escolha do tema foi ótima. Os confusos sentimentos deste zumbi "pensante" e o desfecho final foi sensacional. Parabéns.

Thiago Floriano disse...

velho... sem noção... tive que ler em voz alta! só faltou eu gravar aqui no pc pra ouvir, pra ver se ficava mais massa do que ler... o tema foi difícil, mas pelo visto, apareceram grandes textos...

Vivi disse...

narração em primeira pessoa foi uma boa cartada para revelar a atitude mental do personagem. A fuga, a perseguição são descrições que sobrelevam também o instinto humano de sobrevivência...salve-se quem puder, quem mandou ficar para trás?...O final foi chocante.

Viccari disse...

Repugnante (no bom sentido), mas acho que ficou muito explicativo no final.