segunda-feira, 6 de abril de 2009

Trinta dedos enrugados

06 de abril de 2059

Estou enfraquecendo. Ontem conversei com o médico. Acabamos fazendo uma consulta por webcam. Sabe, essas tecnologias tem um sério problema: quando a câmera está na sua cara, não há como disfarçar. Ele sabe e eu sei: não vou longe. Deixei de lado o computador e peguei meu maço de cigarros. Nem o Malboro nem o café me abandonaram nesses últimos anos de solidão. 

Mais irreversível que a doença é a saudade. Todos os dias lembro meu avô. Homem bom. Fumava palheiro. Me deixava enrolar a palha quando meu pai não estava por perto. Consigo sentir o cheiro que ele deixava nas minhas mãos. Aliás, ele sempre dizia que eram parecidas com as mãos dele. Um dia eu perguntei por que as pontas dos dedos dele estavam enrugadas e ele sorriu. Me levou até uma torneira, deixamos minhas mãos de molho. Lembro de como os olhos dele brilharam quando ele disse que quando meus dedos também enrugassem, eu não me assustasse: era só água. 

Um dia ele desapareceu. Ninguém me explicou por que. Sempre que eu sentia saudades dele, ia até o banheiro, enchia a pia de água e deixava meus dedos enrugarem. 

A fumaça do cigarro é a desculpa perfeita pra um choro disfarçado. Finjo que me afogo, minha esposa – tão cuidadosa, minha Teresa – vem me acudir e eu peço um abraço. Choro como quando eu tinha seis anos e meu avô cuidava de mim. Peço um café e ela vai. 

O café é herança do meu pai, meu avô não era muito chegado, não. Mesmo com gastrite, meu pai nunca esquecia de deixar que o cheiro do café invadisse nossos quartos e nos desse bom dia. Era a certeza de que mais um dia chegaria e ele estaria ali. Um dia meu filho, neto dele, tomava café conosco e perguntou ao pé do meu ouvido porque as mãos do meu pai eram enrugadas. A cena me pareceu tão familiar e tão bonita, que eu não consegui explicar e disse que ele voltasse para o vídeo-game (na época a novidade era aqueles controles com sensor de movimento). 

Quando meu pai faleceu, há uns vinte anos, eu e meu filho paramos ao lado do caixão. Eu segurei a mão dele e o levei para o banheiro. Com as mãos enrugadas, nos despedimos do melhor homem que esse mundo já viu: meu pai. Entre lágrimas rolando no meu rosto, eu sorri. Estávamos iguais. Sempre seríamos iguais. 

Ontem meu neto veio aqui. Chegou com as mãos molhadas e enrugadas. Sentou ao meu lado e tomou café comigo, enquanto fingia fumar com uma caneta. Mudaram as coisas. Não sinto mais o cheiro dos livros, não sujo mais minhas mãos com jornal. Mas é na ponta dos meus dedos que está a prova que o tempo sempre passa e que tem coisas que não mudam. Nunca. 

6 comentários:

Gabriela Magnani disse...

É. Tem coisas que não mudam :)

Thiago Floriano disse...

sinceramente, um dos textos mais profundos em sentimento que li nos últimos tempos... to vendo que essa rodada é das boas...

Rodrigo Oliveira disse...

bem sensível. a inversão de gênero tb foi interessante. o futuro em mim por miss Melz. de volta à velha forma hein? =P

Lou disse...

Sinceramente? Chorei.

É isso.

Um beijo.

Vivi disse...

Sintonia com o coração. Impossível não se emocionar.

Beijos

Fábio Ricardo disse...

história bonita.... arrepiou.