segunda-feira, 25 de maio de 2009

Clichê

Câmera em movimento. Das frestas de madeira da janela, alguns poucos raios de sol conseguem passar. Sem música com piano. Só se houve uma respiração tranqüila. A câmera passeia pelas roupas no chão. Chega à cama. Close nos quatro pés que estão juntos. No centro do colchão, pose clássica: ela deitada no peito dele, com a camisa amassada. Os primeiros botões estão abertos. Ela acorda e, com os olhos pequenos e inchados, olha pra ele com ternura. Acomoda-se e volta a dormir. Fecha.

Tela escura. 

- Parece que estou dentro de um livro teu.
- Inevitavelmente você será personagem.
- Todas são?
- Quase. 
- Como quase?
- Escolho.
- São muitas?
- Algumas.
- Escolhes como?
- As que são poesia.
- Sou poesia?
- Prosa.
- Como?
- Não sei, não se explica. Só é.
- Então não entro para o rol das heroínas. Não serei título.
- Não. Essas foram as paixões.
- Não foram amor?
- Não existe amor.
- Como não existe amor?
- Assim. Não existe. 
- E os livros? E as palavras?
- São paixão.
- E amor?  
- O amor é mentira mais sincera, de todas as mentiras que eu digo. 

Fecha. No escuro. Não aparece fim. Créditos. 

6 comentários:

Fábio Ricardo disse...

bom diálogo. cafa pride mode on.

Rodrigo Oliveira disse...

só, isso foi estranho. enveredando por novas vias? Mas com um pézão lá na origem. Gostei da parada cinematográfica. ficou... estranho. =)

JLM disse...

roteiro tb vale?

Schali disse...

Sempre Marina.
Irresístivel! "O amor é mentira mais sincera, de todas as minhas mentiras"....

Perfeito!

Schali disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Félix B. Rosumek disse...

Rápido, rasteiro... e muito bom! Gostei! Como sugestão, poderia buscar uma resposta diferente para substituir o "Assim. Não existe.", que ficou como a única fala fraca do diálogo.