quinta-feira, 7 de maio de 2009

Rusalka

N.A.: esse texto é longo pacas. Leia em um momento mais calmo.


Era mais uma noite de espetáculo no Teatro Rilke. O público era razoavelmente bom, ainda mais para uma noite fria na Cidade Nova de Praga. O teatro também não era dos maiores, mas possuía sua tradição e púbico fiel. Vantagens obtidas por ser um teatro de família, nunca tendo caído na mão de donos descompromissados desde sua fundação.

Franz Dvořák Rilke era quem atualmente a tudo dirigia. Os membros mais velhos da família, reais proprietários do estabelecimento, não tinham o menor receio em deixá-lo a cargo de Franz. A tradição familiar dizia que ele provinha de uma cepa bastarda do próprio grande compositor romântico e, assim, seu pai havia adicionado o nome do meio no batismo. Deste modo, a arte corria em seu sangue, embora seu talento fosse limitado a uma razoável habilidade no piano. Franz gastava seu tempo principalmente como um enérgico organizador, e confiava em Shaprov, seu auxiliar de confiança, para a seleção de apresentações de qualidade.

Naquela noite, o teatro homenageava seu ilustre ancestral, com sua mais conhecida ópera. Além de freqüentadores costumeiros e alguns rostos novos, Franz viu alguns turistas em meio à platéia, ansiosos pela experiência de assistir à "Rusalka" de Antonín Dvořák executada em sua terra de origem. A obra era famosa, mas o próprio diretor estava curioso para ver como se saíam os intérpretes, ainda desconhecidos para ele. Havia cumprimentado os artistas rapidamente, reparando por um instante na soprano que interpretaria a protagonista, uma garota de sorriso tímido e aparência comum, que dificilmente poderia ser classificada como diva. Mas dizia Shaprov que ele teria uma bela surpresa. Esperava que fosse positiva, é claro.

Após correr de um lado para o outro ajustando os últimos detalhes, Franz pôde relaxar ao lado do palco, esperando o espetáculo começar. O apresentador subiu e discursou sobre o artista e a obra, dando um rápido histórico de Dvořák e sua produção artística, mais conhecida pelos concertos e sinfonias, e a composição daquela ópera em especial, já no zênite de sua vida, na virada do século XIX para o XX. Franz não era um ardoroso fã de ópera, mas já conhecia a história de cor, e estava com os olhos mais atentos nos pequenos detalhes e defeitos que só seus olhos experientes poderiam perceber. Nada que o público notasse, mas sempre coisas a se melhorar da próxima vez: a postura do apresentador, sua saída do palco, a abertura das cortinas, o posicionamento dos músicos, o direcionamento das luzes para aqueles que dava as primeiras notas e cantavam os primeiros versos...

Isso só até o momento em que a luz central se acendeu, e dela veio uma melodia de incrível beleza, se espalhando em ondas lânguidas por todo o salão. Atingiu Franz diretamente na espinha, espalhando um estremecimento de prazer pelo corpo todo. Conforme o som era assimilado pelos espectadores, o silêncio absoluto os atingia, estarrecidos e boquiabertos pelo que estavam ouvindo. Um cantar cristalino de simultânea doçura e imponência, etéreo e poderoso. A menina de aparência comum não mais existia: a combinação de luz, canto e atmosfera fazia-os acreditar, mesmo contra toda lógica e racionalidade, que era a própria Rusalka que lá estava, o jovem espírito das águas, enfeitiçando a todos em um palco além do mundo real.

Durante o restante da apresentação, o público assistiu hipnotizado ao drama da ninfa das águas, trocando sua natureza mística pela paixão por um príncipe humano, posteriormente enganada e traída, e caindo em desgraça, tornando-se um maligno espírito da morte a habitar as profundezas de um lago. Mesmo no melancólico final, com a morte redentora do príncipe e o destino eterno de Rusalka como demônio das águas, só poderia haver uma palavra na boca de todos os espectadores: beleza. O que foi traduzido em uma salva vigorosa de palmas, que ressoou como se fosse nos imensos salões do Teatro Nacional.

Franz, entretanto, não se ergueu. Ainda em êxtase, não conseguia tirar os olhos da soprano, agora com um largo sorriso de felicidade, alívio e agradecimento emoldurando os lábios. Apenas quando ela desceu seus olhos sobre os dele, o homem conseguiu levantar-se vagarosamente e aplaudir, sem desviar o olhar, o que só deixou o seu sorriso mais largo. Ele disse a Shaprov, ao seu lado, que gostaria de saber tudo sobre aquela pequena notável. Mesmo antes de saber que ela era de origem romena, que tinha chegado à cidade há poucos meses, estudava canto em uma universidade local, e vivia sozinha, ele já tinha uma certeza: a jovem Caterina Ionescu acabava de garantir mais uma apresentação.

* * *

Era a quarta apresentação de "Rusalka" em menos de quatro meses no Teatro Rilke. A cada apresentação, mais espectadores surgiam para conferir os comentários de amigos e críticos sobre o desempenho da soprano Ionescu. E, novamente, na primeira fila sentava Franz, aguardando ansiosamente pela apresentação, com Shaprov ao seu lado. Este comentou:

- Sabe, há pouco tempo atrás, vocês estaria correndo de um lado para o outro antes de uma apresentação tão cheia.

- A vantagem de repetir espetáculos é que cada nova apresentação possui menos coisas com os quais se preocupar. E, além disso, não quero perder um instante.

Shaprov riu.

- Ópera nunca foi seu tipo de música favorito, mas você virou fã de uma hora para a outra, com essa menina.

- Eu não sou fã de ópera. Sou fá de Caterina.

- Percebe-se. Nunca alguém se apresentou tantas vezes aqui em tão pouco tempo. Sabe os comentários que esse tipo de adoração geram, não é?

- Sim, eu já ouvi algumas fofocas por aí - mostrou-se um pouco irritado - Eu sou casado, e a menina tem idade para ser minha filha.

- O que nunca impediu ninguém de fazer nada.

- Cale-se, Shaprov. Os boateiros são idiotas por natureza, mas você me conhece - sua expressão suavizou quando mudou de assunto - Chegou a ver algum ensaio da próxima ópera?

- Sim. "O Diabo e Kate" é uma boa obra, mas menos popular que "Rusalka", você sabe.

- Sei sim. Mas Caterina adora Dvořák - diante do olhar do outro, foi rápido em emendar - Ademais, ainda é uma obra conhecida, e seria uma estratégia interessante um teatro com sangue Dvořák se focar em obras do mestre.

- Concordo com essa lógica. Pode ser um bom marketing.

O apresentador já subia ao palco e iniciava sua ladainha. Franz abaixou o tom de voz:

- E a menina interpreta essas obras de um modo magnífico. Ela como Kate será um grande sucesso também, o que é bom para todos nós. Sabia que ela se machucou em um dos ensaios?

- Ah, é?

- Uma peça de decoração cedeu e abriu um corte em sua perna. Ela não se abateu e falou que eu devia ter ficado feliz por aquilo. "Nos Cárpatos romenos se diz que um artista fica eternamente preso a um palco que bebeu seu sangue", ela falou.

- Isso é meio mórbido...

- Ela falou como brincadeira. Significa que ela gosta muito de estar aqui também, e pelo menos por enquanto está satisfeita em permanecer conosco.

- Interessante. Não somos um dos teatros mais importantes da cidade. Algum motivo especial para essa falta de ambição?

- Contenha sua malícia. Parece que ela apenas que dar um passo de cada vez.

A cortina se abriu. As primeiras notas soaram. O silêncio caiu sobre a platéia.

A decoração do palco estava bem mais elaborada nesta apresentação. O sucesso da apresentação tinha permitido tais extravagâncias. Mas nem era preciso ter uma única folha de celofane, pois todos os olhos e ouvidos se voltavam para Caterina quando ela iniciava seu canto. Franz gostava de ver como os olhos daqueles que ouviam pela primeira vez se arregalavam ao confirmar os comentários dos outros. Não restava dúvida de que ali havia uma artista diferenciada. A timidez da primeira vez estava gradualmente sendo substituída por confiança, o que apenas realçava o virtuosismo da cantora. Franz se ajeitou na poltrona e se preparou para escutar tudo novamente, sem sentir um segundo de tédio.

Ainda na metade do primeiro ato, Caterina se voltou para o público, entoando uma longa, suave e aguda nota. Ele adorava quando ela fazia aquilo, olhando nos olhos do público, fazendo cada um sentado ali sentir-se parte do acontecimento. O som parecia cortar os limites do corpo material e tocar diretamente na alma, acariciando-a e fazendo lágrimas brotar nos olhos mais sensíveis.

Mas, no meio daquele momento sublime, ao fitar um setor específico do salão, a voz foi subitamente cortada.

Um confuso sobressalto se passou pela platéia enquanto a cantora silenciava. Foi apenas um segundo, e a orquestra tentou manter o ritmo, sem desandar. Caterina tentou entrar de novo no compasso, mas sua voz veio vacilante, trêmula, sem nenhum resquício da magia anterior. Alguns olhares de estranhamento foram trocados entre os que já conheciam a garota. Franz, sentado na frente e com olhar atento, percebeu que ela estava pálida, as pernas tremiam. Temeu que ela fosse desmaiar. Mas, antes que isso pudesse acontecer, Caterina se retirou do palco com passos vacilantes.

O homem se ergueu junto com o murmúrio da multidão. Ele caminhou rapidamente para os bastidores, acompanhado por Shaprov. Em segundos estavam diante da porta da pequena saleta onde a soprano se arrumava. Porta trancada.

- Caterina? - Franz falou.

Sem resposta. Mas ele pôde ouvir movimentos nervosos do outro lado.

- Caterina, abra a porta. O que aconteceu?

Ela tentou falar algo, mas as poucas palavras saíram desconexas. Sua garganta estava travada de nervosismo. Franz sussurrou para o companheiro:

- Vá para o palco e diga que Caterina está mal e não poderá continuar a apresentação. Diga que ela estava doente e tentou fazer o possível, mas não poderia concluir o espetáculo. Devolva o valor dos ingressos de todos e peça mil desculpas.

Shaprov anuiu e se retirou. Era ruim para o teatro, mas eram contingências que sempre podiam ocorrer. Franz bateu de forma leve na porta, falando em tom suave.

- Caterina, por favor, me responda... Só quero saber se você está bem... E outra hora podemos conversar a respeito, se você preferir...

Após alguns segundos de hesitação do outro lado, a chave girou na fechadura. Franz entrou no camarim e voltou a trancar a porta. Caterina estava sentada em uma poltrona, tentando acalmar a respiração, algumas lágrimas borrando a maquiagem. O homem puxou a cadeira em frente ao espelho e se sentou, apenas esperando em silêncio.

Depois de alguns minutos, as expirações da jovem desaceleraram. Ela conseguiu murmurar:

- M... me desculpe...

O homem balançou a cabeça paternalmente. Conheciam-se há menos de três meses, mas já havia uma grande intimidade entre os dois.

- Esqueça, querida. Consegue me dizer agora o que aconteceu?

- Eu o vi... Ele estava lá, me olhando...

- Na platéia? Quem?

- Eu nunca achei que ele me encontraria tão rápido...

- Encontraria... você? Quem estava lá, Caterina?

Ela suspirou profundamente. Fitou Franz, talvez pensando se poderia confiar naquele homem que conhecera recentemente. Por fim, soltou a respiração, bufando, decidida a descarregar toda a angústia.

- Nunca lhe disse por que saí da Romênia, não é?

- Não exatamente. Tudo o que sei é que você não tinha muitos laços a prendê-la lá. É natural uma menina com dons artísticos vir desenvolver suas habilidades em Praga.

- Eu adoro cantar, e talvez viesse para cá em algum momento por esse motivo. Mas eu saí de lá por um motivo maior, e nem remotamente tão bom quanto aquele...

* * *

"Nunca conheci meu pai, mas minha mãe é casada com um homem que me respeitava e supria minhas necessidades materiais. Eu estudava música na Carpátia e já fazia algumas apresentações, para treinar e levantar um dinheiro próprio. Assim que eu tivesse uma boa quantia guardada, poderia pensar em sair e cursar uma universidade de grande porte. Mas então eu conheci Ilie Danescu."

"Ele era o diretor do teatro da cidade. Você sabe, uma cidade pequena não possui muitos espaços desse tipo... Então, quem tem ambições artísticas inevitavelmente passa por lá. Não é como numa capital cultural como a sua..."

Ela acrescentou:

- Tampouco os diretos são tão gentis...

Franz apenas deu um sorriso.

"Comecei a cantar lá há cerca de três anos. No começo, eu mal via Ilie. Ele era funcionário público, e não daqueles que gostam de ficar lidando com gente pequena. Ele também não tinha nenhum interesse pela arte, não sei quem deve ter ofendido para ser colocado naquela posição. Mas, não fazendo nada de bom, ao menos não fazia nada de mal, pois tinha outros negócios com o qual se preocupar. E a vida artística seguia morna como sempre na cidade."

"Depois de mais ou menos um ano, Ilie resolveu assistir uma peça que estávamos apresentando. Acho que ele estava querendo impressionar alguma acompanhante ou algo do tipo, dando aquela demonstração de 'culturalidade'. Mas, no momento em que comecei a cantar, senti seus olhos caírem em mim. E não desgrudaram até o final da apresentação. Ele foi um dos que aplaudiu com maior entusiasmo, pouco ligando para a sua acompanhante. Depois daquele momento, eu passei a vê-lo em todas as peças onde eu estava."

"Ao mesmo tempo, ele passou a se interessar muito, aparentemente, pela minha carreira. Falou que eu tinha um futuro brilhante. Que seria a nova diva da ópera. Recomendou que os melhores professores dessem atenção especial para mim. Suspeito até que mexeu os pauzinhos para que eu sempre tivesse um destaque maior do que deveria, o que causou um pouco de inveja em algumas colegas."

"No começo, eu gostei, é claro. Qual a menina que não gosta de ser lisonjeada por suas habilidades naquilo que gosta de fazer? E sempre é bom ter amigos em um nível superior, abre muitas portas..."

Ela teve que parar nesse ponto, engolindo em seco.

- Mas... - incentivou Franz.

"Mas... Logo percebi que o interesse de Ilie não era apenas em minha música... Ele parecia estar querendo avançar algum sinal, mas sempre se continha o bastante para não me assustar. Não posso dizer que ele tenha sido perverso, no começo. Mas esse tipo de... desejo... cresce de modo assustador caso fique latejando, sem nunca ser sanado... Eu não me sentia mais confortável em qualquer situação em que me encontrasse sozinha com ele."

"Conforme o tempo passava, a situação ficava mais constrangedora. Comecei a ouvir rumores, gente falando besteira, e alguns sugerindo que ele estava ficando obcecado por mim... De desconfortável, passei a temerosa. Comecei a ter medo dele, mas, ao mesmo tempo, não podia largar aquele mundo, que era tão importante para mim."

Nova pausa. Agora os olhos começavam a ficar marejados.

- Caterina... Eu sei que é difícil... Mas eu preciso saber... O que aconteceu?

- Uma noite teria que acontecer... e aconteceu... há cerca de dez meses...

Ela olhou para o teto, fungando. Apertou as mãos uma conta a outra.

- Não há muito o que falar... Era uma noite em que eu fiquei ensaiando até tarde. Ele deu um jeito de dispensar os outros e deixar o teatro vazio. E então foi ao meu encontro... e...

Franz colocou os ombros na mão da menina, que tremia.

- Caterina... o que ele fez com você?

- Nada... Felizmente... Quero dizer... Ele me atacou, mas eu consegui escapar a tempo, não sem antes ele me machucar... Mas ele não conseguiu nada... a mais...

Franz assentiu, aliviado.

"Mas não tinha como eu permanecer no teatro. Nunca mais botei os pés lá, tentando desaparecer da vista dele. Entretanto, ele não desistiu. Ficou louco e começou a me procurar em todos os lugares, até em casa ele esteve um dia, e meu padrasto não o expulsou porque nada sabia. Contei o ocorrido apenas para minha mãe, que ficou muito preocupada e disse para contarmos à polícia, o que fizemos. Mas ele é um homem importante, com dinheiro e influência política. Em uma cidade pequena, a lei pesa menos do que a influência pessoal..."

"Eu decidi então que não tinha mais porque permanecer ali. Não podia estudar o que amava, e não podia me sentir segura. Era o momento de dar um passo adiante. Juntei o que tinha de dinheiro guardado, peguei o que mais minha mãe conseguiu juntar, e parti. Fiquei por algum tempo em Bucareste, mas fiquei sabendo pela minha mãe que Ilie enlouquecera completamente e quisera saber de todas as maneiras para onde sua 'menina-prodígio' havia ido. Felizmente meu padrasto não sabia onde eu estava, e tratou de escorraça-lo de casa quando forçou a barra com minha mãe."

"Eu não podia me sentir segura ali, então decidi ir para mais longe. E onde melhor do que a capital cultural de Praga para uma aspirante a cantora? Deste modo, eu colocava dois países de distância entre eu e Ilie. E, em muito pouco tempo, pude começar a ser feliz aqui..."

- Até... hoje...

E parou de vez, lágrimas correndo pelo rosto.

O silêncio permaneceu pesado na sala, enquanto Franz digeria a história que acabara de escutar. Não imaginava que, por trás daquela garota sorridente, houvesse uma história dessas, tão recente. Ficou fascinado pela força de Caterina, para tomar decisões corajosas e enfrentar situações que fariam muitas moças do interior apenas chorar impotentemente.

Naquele momento, porém, era o que ela fazia.

Ele deslizou a mão pela face da menina, secando as lágrimas. Um outro pensamento insidioso acometeu-lhe, de repente. Não estava ele seguindo o mesmo caminho de Ilie? Não ficara fascinado pela moça e seu cantar na primeira audição? Estremeceu levemente ao lembrar como fora arrebatado pela voz da menina, de modo instantâneo e quase sobrenatural. Não poderia ele seguir o mesmo caminho do outro?

Tentou esquecer isso e aliviar o clima:

- Pelo menos aqui em Praga você viu que nem todos os diretores de teatro são malucos, não?

Ela deu uma risada nervosa.

- Sim, pelo menos... Muito pelo contrário, na verdade. Tive a sorte de encontrar um em quem posso confiar, e que me acolheu como se eu fosse sua própria filha...

"Sim", pensou Franz. "Um quarentão sem filhos e uma menina que nunca teve pai. Não é inesperado o carinho que sentimos um pelo o outro. Essa é a diferença entre eu e Ilie. Não pode ser outra coisa... certo?"

- Sim, Caterina. Eu já lhe considero como se fosse parte da minha família.

E os dois se aproximaram em um longo e apertado abraço. O homem sentiu certo desconforto pela sua reação ao toque, mas ela pareceu não ter notado. Ele encerrou o abraço antes de pensar em mais qualquer coisa.

- E agora, vamos fazer o seguinte, querida... Eu lhe levarei e buscarei em casa todos os dias em que você precisar vir ao teatro. De resto, apenas fique muito atenta. Praga é muito maior que sua pequena cidade, não será fácil ele encontrá-la por aqui. Você tem um retrato daquele homem?

- Devo ter, em alguma foto com o pessoal do teatro.

- Me passe ele que mandarei o pessoal daqui ficar atento na próxima apresentação, mas não mencionarei que é um problema com você. Se ele der as caras de novo, vamos chutá-lo para fora daqui para nunca mais voltar. E, se ele insistir, iremos à polícia. Aqui ele não terá a mínima influência.

Ela anuiu, mais calma. Só pôde abraçar novamente ao homem, murmurando:

- E Franz... Muito obrigado...

* * *

A nova apresentação não demorou a chegar. Como a última "Rusalka" fora suspensa no início por um problema de saúde da protagonista, o Teatro Rilke marcou uma nova data, duas semanas depois. O público manteve-se bom, pois muitos dos recém-admiradores estavam curiosos para saber o que havia acontecido e se a sua soprano favorita voltaria a apresentar-se com o mesmo vigor.

Franz e Shaprov assumiram seu lugar costumeiro, discutindo em voz baixa a possível situação a ocorrer na noite. O auxiliar era o único que sabia quase toda a história, apenas sem os detalhes.

- Poderíamos dar-lhe uma surra fenomenal e jogar o corpo no Vlatva.

- Shaprov! Não somos esse tipo de gente. E, ademais, se uma simples intimidação não o afastar, a polícia certamente o fará.

- Cuidado. Se a história que ela contou é verdadeira, estamos lidando com um psicopata, não um simples maluco.

- Ele já foi longe demais vindo até aqui. Não lhe daremos muitas chances de ultrapassar limites, pode deixar. Mas não podemos fazer nenhum escândalo hoje e estragar mais uma apresentação de Caterina.

Um dos ajudantes chegou ao lado de Franz e sussurrou-lhe algo ao ouvido. Ele imediatamente se levantou.

- E ainda bem que o encontramos antes da peça começar.

Os dois homens foram até o lugar indicado pelo ajudante, acompanhados por dois seguranças internos. Estes permaneceram à distância, no fim do corredor, enquanto os outros se dirigiam à poltrona.

O homem sentado estava impecavelmente vestido. Sua aparência era de elegância e completa sobriedade. Porém, o olhar que dirigiu aos homens de pé foi disfarçadamente tenso. Franz falou de modo neutro:

- Senhor, queira acompanhar-nos, por favor.

Danescu titubeou, mas respondeu com um sorriso amarelo:

- Algum problema?

- Sim, senhor. Queira acompanhar-nos à recepção, por favor.

O homem ainda hesitava, indeciso entre obedecer ou não. As pessoas ao redor estavam se entreolhando, curiosas. Com a demora, Franz olhou para os seguranças, que deram os primeiros passos. O romeno percebeu e imediatamente se levantou, evitando chamar mais atenção indesejada.

- Como queiram, cavalheiros...

Foram juntos à portaria e, chegando lá, Danescu apressou o passo, indo direto para a saída. A um aviso de Shaprov, o segurança da portaria interveio, bloqueando a passagem. O homem agora dava sinais claros de nervosismo:

- O que é isso, eu poderia saber? Se não posso assistir, deixe-me sair!

O círculo se fechou mais sobre o homem. Franz checou rapidamente a portaria, para garantir que nenhum espectador curioso estivesse à vista. Falou, agora com uma voz ameaçadora:

- Escute aqui, seu filho da puta. Não finja que não sabe o que está acontecendo. Sei muito bem quem é você.

- Se sabe quem sou eu, então imagina o que pode acontecer se eu...

- Eu sei que você é alguma coisa numa cidadezinha de nada em um outro país. Aqui você não é merda nenhuma e ninguém vai dar a mínima para o que lhe acontecer. Só sei que não quero ver sua cara nunca mais no meu teatro e na minha cidade, então volte para sua toca e não saia mais de lá. Senão, lhe daremos uma surra e jogaremos sua carcaça para apodrecer no fundo do Vlatva!

Shaprov estava levemente surpreendido, e sorria. Poucas vezes ele ouvira o patrão falar daquele jeito, mesmo com os mais desastrados ou preguiçosos funcionários. Ele podia sentir a raiva por baixo de sua pele e pensava "o que uma mulher não faz com um homem...". O romeno sabia que não havia argumentação ali, deu as costas, preparando-se para sair.

Então Franz deixou o controle de lado e agarrou a camisa de Danescu, puxando-o pelo colarinho.

- E se você se atrever a sequer se aproximar de Caterina... Então eu vou atrás de você, não importa onde você esteja, e você vai pagar por tudo o que fez com a menina!

A expressão do romeno, nesse momento, passou de pavor a uma certa ironia entristecida.

- Sim, eu sei o que é isso... É o que eu sinto agora... A vadia é uma bruxa... E vai enfeitiçá-lo também...

Franz bufava e tremia de raiva agora, mas o outro não parava.

- Livre-se dela enquanto puder... E a devolva para mim... Eu a levo de volta para casa... e cuido bem dela, pode deixar...

O punho do diretor fez uma rápida viagem à boca que sibilava, arrancando sangue de ambos. Agora era demais: Shaprov separou-os e mandou os seguranças jogarem o romeno ferido para a rua.

- Que droga foi aquela, Franz? Não era só para intimidar o homem?

- Ele não deveria falar daquele jeito da menina...

- Relaxe e se acalme! Sou quase capaz de acreditar que a menina lhe enfeitiçou mesmo...

O olhar do outro fez Shaprov mudar de rumo.

- Certo, certo, desculpe. Resolvemos nosso problema maior. Agora se recomponha e vamos lá aproveitar o espetáculo, hein?

"Sim, vamos aproveitar o espetáculo. Terá Caterina notado alguma coisa do que aconteceu?"

Tivesse ou não notado, não demonstrava nenhum sinal. A ópera já tinha começado, e Caterina estava cantando normalmente. O diretor imediatamente sentiu-se tranquilizado, novamente admirando a força da garota. Mesmo com a tensão que permeava a noite, ela se superava e mostrava seu melhor desempenho até agora. E novamente conquistando corações.

* * *

Nunca mais ouviram falar de Ilie Danescu, fosse por realmente ter se intimidado e ido embora, ou qualquer outro motivo ("Será que ele foi nadar no Vlatva?' brincava Shaprov). Caterina pôde continuar sua vida tranqüilamente junto ao Teatro Rilke. "O Diabo e Kate" estreou com uma boa aceitação. A garota já tinha uma certa fama local e começava a aprecia-la, agora que não temia ser encontrada. Sabia que tinha um protetor dedicado, o real pai que nunca teve, pronto para dar-lhe apoio naquilo que precisasse. Perguntada sobre seu desejo de apresentações em palcos maiores e, quem sabe, outros países, ela apenas respondia que por enquanto ainda queria ficar com a "família".

O Teatro que não poderia reclamar. As apresentações de Caterina tinham atraído um novo público ao estabelecimento e aproveitavam para freqüentar outros tipos de apresentação. Novos artistas surgiam para oferecer seus espetáculos. Cogitou-se inclusive mudar o nome Para Teatro Rilke-Dvořák, tornando-o uma referência ainda maior nas obras do mestre, mas os idosos proprietários ainda resistiam a mexer nas tradições. A proposta de Franz de alterá-lo para Dvořák-Ionescu foi recebida com incredulidade, e declinaram veementemente dizendo que era ridículo considerar tão cedo a garota parte da história do teatro.

Inabalado, Franz seguia em uma felicidade praticamente constante. Era excelente ver o teatro evoluindo, novos artistas aparecendo, os investimentos na decoração e melhorias se tornando possíveis. Se fosse mantido aquele ritmo, em breve poderiam fazer uma grande reforma no estabelecimento, como não era feito há mais de três décadas, ampliando sua capacidade e modernizando-o, mas sem tirar a atmosfera clássica que era um de seus atrativos.

Sua empolgação com o teatro era tanta que pouca atenção ele dava aos boatos maldosos sobre sua relação com a garota. Estava claro, ele sabia, que sua relação era paternal e tutorial. Mas sempre havia os faladores de plantão, que acabavam por influenciar até sua mulher. Esta dizia que ele passava tempo demais com a menina, ao qual ele respondia que era uma forma de acompanhar e incentivar o nascimento de uma estrela, como ele faria se fosse sua filha. "Por que você nunca quis ter filhos comigo, então?", ao passo que ele ria e desconversava, "Bem, eu não tive que acordar de madrugada para trocar as fraldas dela, tive?".

* * *

Seis meses haviam se passado desde o incidente com Ilie. Caterina estava no palco, encerrando um ensaio para "O Diabo e Kate", com a orquestra ajustando alguns defeitos menores percebidos na última apresentação, quando Franz foi encontrá-la no palco.

- Tudo em cima para a próxima apresentação, Cate?

Ele usava este apelido agora, e ambos concordavam que era um trocadilho divertido com o nome da última ópera.

- Acredito que sim, Franz. Os músicos e outros cantores estão muito bem afinados agora.

- Muito bom. Escute, agora que vocês encerraram, eu gostaria de lhe mostrar uma coisa especial.

Já era noite e os outros instrumentistas se retiraram, deixando apenas os dois acompanhados do piano e um salão vazio.

- Daqui a dois meses você estará completando um ano de apresentações conosco, e, para celebrar isso, pensei que poderíamos acrescentar um pequeno número à apresentação que será feita naquele período.

- Ah, é? Parece uma idéia legal. O que temos?

- Fiz uma adaptação de um trecho do "Concerto para Violoncelo em Lá Menor", na versão original acompanhada por piano. Pensei que ficaria interessante se tocado apenas com piano e a voz, cantando uma letra e fazendo a linha melódica do violoncelo.

Caterina arregalou os olhos, encantada.

- Você escreveu essa adaptação... e essa letra... apenas para mim?

Ele respondeu com um sorriso e um dar de ombros.

- Que lindo, Franz... Deve ter dado muito trabalho...

- Ah, gastei algumas noites em cima disso, mas acredito que valeu a pena.

- E as partes do piano?

- Eu mesmo farei, seremos apenas os dois no palco. Quer tentar?

- É claro!

Franz deu à garota a partitura com as linhas vocais e a letra, e tomou seu lugar no piano. Começaram de modo vacilante, mas logo encontrando uma sincronia musical que poucas duplas conseguiriam alcançar, mesmo após anos de treinamento.

Franz fazia as notas soarem do piano, as melodias sempre sagazes e características de Dvořák, enquanto a voz de Caterine mostrava um alcance e timbre de fazer inveja até a um legítimo Stradivarius. A música fluía dos dedos do homem e dos pulmões da mulher, derramando-se pelo ar do salão e enchendo-o de beleza quase mágica. As próprias paredes e poltronas, se pudessem fazê-lo, teriam chorado e aplaudido àquelas horas em que os dois repetiam e repetiam a obra, cada vez mais próximos da perfeição, como se estivessem ensaiando há anos, décadas, séculos de companheirismo e intimidade, aquela que apenas almas gêmeas podem alcançar, em comunhão espiritual pelo divino meio da música.

Quando se deram por encerrados, já era alta noite, e ambos permaneciam em suave êxtase pelo encanto do momento, que a tudo permeava. Caterine foi quem falou, quase às lágrimas:

- Franz... eu queria realmente agradecer... por esta canção... pelo espaço em seu coração... por tudo... você é muito importante para mim.

- Sim, Cate. E você o é para mim. Sabe o que eu sinto por você...

- Sim, eu sei.. pai...

- ... filha...

Se abraçaram no palco, um abraço firme, carinhoso, apertado e demorado, do tipo que quebra as barreiras do tempo e fazem os segundos se esticarem até o tamanho de horas.

E então Franz tentou beijá-la.

Ela se afastou ao sentir o contato dos lábios dele. Abriu os braços e se desenvencilhou.

Um instante de quietude quase sepulcral.

- Franz... O que... foi... isso?...

O homem estava atordoado.

- E-eu não sei... desculpe, eu...

Não sabia o que dizer. "Eu fiz o que sempre deveria ter feito!", sua mente berrou, em uma revelação para si próprio. Ele tentou encontrar as palavras, que lhe fugiam em meio à vergonha.

- Há muito tempo que... eu... percebi que...

- Percebeu o que, Franz? - a voz dela também vacilava, mas escondia alguma mescla de emoções que ele não conseguia decifrar. Decepção... receio... desprezo... ironia...?

- Eu achei... que você também...

Balbuciou alguma coisa ininteligível e se calou. Sentia a garganta tremer.

- Não posso... - ela murmurou

- O que você disse?

- Eu não posso... - falou mais alto.

- Não pode o que, Cate?

Ela balançou a cabeça, erguendo as sobrancelhas, como que se desculpando.

- Eu não posso mais ficar aqui.

- Como assim?! - foi a pergunta desesperada. Mas ela já se voltava para sair.

- Aconteceu de novo, Franz. Eu não posso mais ficar aqui.

- Cate!

Ele avançou e segurou-a pelo braço.

- Deixe-me ir, Franz! Chegou a hora de ir...

- Não!

Sua resposta foi furiosa. Ele apertou o braço.

- Você não vai ir embora... Não agora... Não depois de tudo... Diabos, Caterina, eu te amo!

- Não, Franz! Você não me ama... Você ama a minha voz!

Ele congelou por um instante. Mas não largou o braço dela.

- Cate... É claro que não... Eu... eu... eu amo você!

A jovem fitou-o com um olhar raivoso:

- Era o que ele também dizia... mas daquela vez eu acreditei... até perceber a verdade...

- Ele? Ele quem, mulher?

- ILIE!!

O assombro e a raiva cresceram na alma do homem. Ele apertou com força e chacoalhou-a enquanto gritava.

- Ilie?... ele... e você... por que você não me contou? Por que mentiu para mim?

- Franz, você está me machucando!

- Você... você fez comigo... o mesmo que fez com ele! Sua... sua...

- Me largue agora!

Ele respondeu ao comando sem ao menos perceber. Ela aproveitou para se soltar e tentar fugir. Ele teve a impressão de ouvir uma leve aragem em seu ouvido, como o sussurro de um homem morto, dizendo-lhe "não a deixe escapar desta vez". Gritando, agarrou-a pelas costas e derrubou-a no chão, apertando seu pescoço.

- Sua bruxa! Você me enfeitiçou também! Me deixou cego para todo o resto, como um idiota!

Ela tentava arranhá-lo para se soltar, com a respiração presa, tentando articular algumas palavras:

- M... mme... ssol...

- Cale a boca!

E socou-a com força no rosto. O nariz espirrou em vermelho, manchando a madeira do palco. Ele bateu duas, três, cinco vezes, cada vez com maior força. Quando ela parou completamente de se mexer, ele a largou, sangue no rosto dela, nas suas roupas, pelo chão. Só então sua consciência emergiu da névoa rubra da violência.

- Oh, Deus...

"O que eu fiz?"

- Oh, meu Deus, Cate...

Caiu em cima de seu corpo, chorando com as mãos ensangüentadas. Como ele fora capaz de fazer aquilo? Ainda mais com a mulher que amava? Que tipo de monstro ele havia se tornado?

Mas não tinha muito tempo para chorar. Não era apenas com arrependimento que ele teria que lidar. Ele não era assassino, não sabia como agir. O que uma pessoa normal faria? Ele fez a única coisa que poderia. Pegou o celular e morosamente teclou o número do único que poderia ajudá-lo neste momento.

- Shaprov... Desculpe ligar a essa hora... Mas aconteceu uma coisa... Pode vir para o teatro agora... por favor...

O ajudante chegou e quase enlouqueceu com o que viu. Mas, vendo o estado do amigo, não pôde deixar de se condoer. Sabia que ele, em condições normais, naturais, jamais teria feito aquilo com pessoa alguma. Esperava que agora pudesse renascer um Franz Dvořák Rilke que ele tinha visto desaparecer há dez meses atrás.

Tomando a iniciativa e auxiliado por um companheiro em estupor, Shaprov arrumou a situação do melhor modo possível. Também não era nenhum assassino, mas ao menos assistia a filmes policiais. Limparam o palco com todos os produtos de limpeza que puderam encontrar. Embrulharam o corpo de Caterina em um velho pano de decoração e colocaram-no no porta-malas do carro. Enquanto dirigia, Shaprov, mesmo ainda desconcertado, não conseguia tirar da cabeça a ironia suprema da situação.

Uma vez que, após se afastarem uma longa distância da cidade, chegaram a uma ponte e, finalmente, um corpo encontrou o Vlatva.

* * *

O desaparecimento da jovem soprano foi recebido com certa comoção no meio artístico de Praga. Shaprov corroborou a versão de que havia se encontrado com Franz e Caterine na saída do ensaio daquele dia e ido com o amigo tomar um drinque, enquanto a garota voltava sozinha para casa, o que fazia ocasionalmente desde que Ilie se fora. Com o depoimento dos seguranças, foi fácil colocar o romeno como principal suspeito pelo desaparecimento. Ninguém poderia duvidar da situação arrasada de Franz pela perda de sua protegida, é claro, mas ele também foi colocado sob suspeita. Porém, a garota era uma estrangeira sem amigos nem família próxima e há pouco tempo no país. Não seria uma busca especialmente enérgica, nem um inquérito particularmente dedicado.

Franz, entretanto, não conseguiu se recuperar totalmente do acontecimento. Todos achavam natural o seu abatimento nas semanas que se seguiram, já que, fosse como filha ou algo mais, era inegável a conexão entre os dois. Só Shaprov sabia que o caso era bem mais complexo. Mas nem ele tinha noção do quanto o espírito do homem havia se esfacelado. Amar nunca é fácil. Matar, menos ainda. E para quem mata a pessoa amada...

* * *

Em uma noite qualquer, o homem cambaleava pelo teatro à noite, acompanhado apenas de uma garrafa de Becherovka pura, quase vazia. Caminhando tropegamente por entre fileiras de poltronas, ele tropeçava, caía e se erguia. Sentou-se na sua poltrona costumeira, na primeira fileira, de onde havia assistido tantos espetáculos em sua vida. Quantas apresentações dela ele havia visto mesmo? Oito? Dez? Tinha certeza de que não foram mais do que uma dúzia, mas, na sua cabeça, pareciam centenas. E ele poderia assistir a mais milhares.

Ergueu-se com dificuldade, escalando de modo sofrível o palco. Arrastou-se sobre a madeira, tentando chegar até o antigo piano, que raramente era retirado aos bastidores. Conseguiu sentar na banqueta. Ao colocar a garrafa sobre o instrumento, esta tombou, derramando o licor pela superfície imaculada. Ele murmurou alguma imprecação e deixou a cabeça cair sobre o tampo.

Entorpecido e letárgico, quase como num sonho, seus dedos começaram a apertar algumas teclas. Sons descoordenados vibraram nas cordas, mas logo tomaram forma e adquiriam um padrão. Ele não conseguia parar de pensar nas ironias de toda aquela história, se era uma tragédia ou comédia, então por que não adicionar mais uma e tocar a canção que apenas os dois haviam dividido, em uma noite deslocada do tempo e do espaço, transitando entre os reinos da magia e da morte? Ele sorria e, enquanto sorria, seus olhos marejavam, era quase como se conseguisse ouvir a sua voz lhe acompanhando...

E ele não ouvia sua voz lhe acompanhando?

Era como uma leve aragem agitando seus tímpanos, um sopro de musa no limite da audição. Conforme ele tentava escutar, o som parecia lhe escapar da percepção, fugindo hesitante à sua aproximação. Mas, conforme a música avançava, ele se tornava mais forte.

Sim, era a voz dela, não havia como negar.

Ele jamais poderia confundir aquele doce trinado de sereia, que agora voltava a lhe inundar os ouvidos. Mas havia um toque diferente no que ele escutava agora. Era uma profunda nota de melancolia e tristeza, que descompassou da música conforme se avolumava. Ele parou de tocar o piano e ergueu a cabeça, não sabendo se eram os olhos embaçados pelo álcool que lhe faziam ver aquela nebulosidade espectral que preenchia o palco, uma luz desprovida de cor e origem, mas que permeava o ar ao seu redor. Mais do que isso, ela parecia tomar formas, contornos que só uma mente insana ou drogada poderia interpretar. E, conforme surgiam as formas, surgiam novas vozes a acompanhar o cantar de sua Rusalka perdida. As vozes se ergueram num coro diáfano, em uma melodia que agora ele podia reconhecer. Era o "Réquiem" de Dvořák, preenchido por uma tristeza capaz de atravessar era e fazer deuses e demônios prantearem. Sob o centro do palco, uma das formas ondulava sobre uma mancha no palco, uma mácula que ele sabia que produto algum poderia limpar. Então ele colocou as mãos no rosto e chorou copiosamente, invadido pelo lamento da música e sua própria danação.

Pois, assim como ela estava presa àquele chão para todo o sempre, ele sabia que sua alma também estaria acorrentado ao seu sangue, e de lá não haveria de se erguer - nunca mais...


5 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

Ok, esse texto precisa de algumas observações:

1 - Sim, sei que é possivelmente o maior texto já postado no Duelo (11 páginas no Word). Cresceu mais do que devia, mas não me importo não.

2 - Tudo aqui é meio chavão, mas também não me importa muito. Eu estava é com vontade de escrever uma história "de verdade" novamente.

3 - Passei a noite e madrugada fazendo essa coisa e só dei uma revisada rápida. Se, para variar, eu tivesse começado ontem, poderia estar melhor. Ignorem os parágrafos malucos, o Blogspot gosta de colocá-los e omití-los de modo aleatório no ctrl-c / ctrl-v.

4 - Houve vários pontos em que a idéia original mudou de rumo. Até um certo trecho (mais precisamente, a dura que o Franz dá no Ilie), o Ilie iria voltar e matar a Cate (que seria um personagem 100% boazinha nessa versão) sobre o palco. O final seria o mesmo. Não sei qual dos dois caminhos é o menos chavão, mas o que escolhi ao menos permitiu a cena da discussão dos dois antes do assassinato, que eu curti (embora deva melhorar). Por favor, opinem sobre isso.

5 - Tem quem não vá gostar do elemento fantástico e principalmente do final (Fábio? :D). Mas, por curiosidade, a idéia que deu origem a tudo era exatamente essa, da "ópera fantasma". Mas pode facilmente se tornar uma história totalmente "real". Também gostaria de ouvir opiniões.

6 - São quatro e meia e estou até vesgo. Boa noite (esse não precisa de opiniões).

Rodrigo Oliveira disse...

Qto ao texto, deveria realmente nao importar. É o texto, normalmente, que deve determinar seu tamanho. Qto o #4: Se o Ilie voltasse, o texto perderia um pouco eu acho. Teria q ser o Franz mesmo. Não pela cena da discussão, mas pela inevitabilidade. Outra coisa, o lance Cate-Kate, não deveria ser explicado. Qdo caiu a ficha pensei 'q massa'. Aí, um ou dois parágrafos depois, os personagens (Franz) explica a metáfora. Depois, pior, o narrador explica! Se deixasse só o nome sugerido (sem o apelido, inclusive) ficaria melhor. Até pelo clima meio nebuloso da obra, acho q deveria ficar menos explicito. É uma obra em que a atmosfera é mto forte e é preciso dar espaço pra ela trabalhar. E uma noção das histórias das Rusalkas ajuda tb. Méritos vários. Poucos detalhes a arrumar. Mandou ver.

Félix B. Rosumek disse...

Valeu pelas dicas, Rodrigo. Já revisei algumas vezes melhor e vi alguns trechos que ficam melhor se alterados. Sobre o comentário das Rusalkas, tu diz que seria bom eu colocar algo mais para explicar melhor ao leitor o que elas são, é isso?

Por sinal, a quem ler: o nome da guria era para ser CaterinA mesmo. Culpa das horas de escrita na madrugada! :)

Marina Melz disse...

Votando atrasado pra ter tempo de ler tudo. Mandou muito bem. Mais ou menos da metade pro final a coisa toma uma forma fortíssima, daquelas de ler em um tapaço. Muito bom, mesmo.

Rodrigo Oliveira disse...

Não acho q tem q explicar as Rusalkas não. gosto da atmosfera nublada e mesmo pra um leigo dá pra entender mais ou menos o q elas são. Mas esse subtexto, pra quem pega, deixa o texto ainda mais interessante. Como o lance de Cate e o Diabo. Mas os dois só são interessantes assim, se não forem mto explícitos. Ratificando: belo texto.