sábado, 16 de maio de 2009

Meu amigo

Antes de qualquer coisa, me dou o direito de não usar letra maiúscula, nem chamá-lo de senhor. Essa idolatria toda só te afasta das pessoas. Amigo é amigo. E eu espero que você seja um dos meus.
Já faz tempo que eu penso em te escrever. Não sei nem como entregar esses pedaços de papéis já amarelados. Tão romântico isso de ver a tinta rasgando as folhas que até tinha esquecido como era emocionante. Esses dias me disseram que podias me ler, ler meus pensamentos. Mas nada pode ser menos divino do que esta minha loucura. Talvez pensar nas frases facilite as coisas pra mim e pra você.
Claro: sou desses hipócritas que chegam ao final da vida e só então lembrar que você existe. Tenho pedidos, embora devesse só agradecer. Mas os humanos são assim mesmo, meu amigo: nunca se agradece pela companhia, pelo conselho, pela verdade: pede-se mais. Malditos insatisfeitos, todos nós.
Estou morrendo e o que fiz a minha vida inteira foi escrever. Não poderia me meter a fazer qualquer outra coisa para chamar a tua atenção. Minha juntas doem: como doem esses ossinhos. Se chocam e me provocam dores quase alucinantes. É quase como seu eu estivesse pagando pelo que fiz nessa vida. Vivendo o inferno no final de uma vida inteira no limbo.
Não sou sujeito que se preste. Acho que foi por isso que meus livros venderam tanto. Recebi cartas dizendo que eu escrevia com maestria. É bem simples: as pessoas liam meu livro e se sentiam boas. Elas só não sabiam que meus Pedros, minhas Helenas, meus Caios e minhas Paolas eram, na verdade, todos eu. Alguns jornalistas metidos a besta desconfiavam e queriam me fazer confessar. Ia ser o escândalo do ano. Eu preferia morrer no anonimato a admitir a minha completa falta de tato com a vida e com as pessoas.
Vou explicar. Lá pelos vinte e poucos, eu era um sujeito normal. E escrevia. Esse foi meu principal pecado. Eu sei, eu sei. Mas já que a vida inteira foi assim, não se há porque mudar agora. Pois bem: escrevi um livro pra vender. Uma editora me contratou, eu ganhei dinheiro. Eu ganhava dinheiro para escrever sobre a podridão do universo. Era perfeito. Eu tinha mulheres, cigarros, uísques. Já tinha vivido o lado bom da vida. Eu queria era ser famoso. E consegui.
No começo, ah, era um tesão – desculpe, mas não achei outro termo. Passava o dia entre filmes, livros, passeios ao sol. Bem rápido consegui uma casa. Tinha algumas amantes. Sempre fui bom com as mulheres. Cedo aprendi que uma mulher bem comida sempre volta. E eu mantinha alguns relacionamentos. Algumas até amigas. Era divertido. Amava todas elas, ao mesmo tempo que poderia viver sem nenhuma.
Eu sofria, apesar de tudo. Aí me apareceu Ceci. E eu cheguei ao fundo do poço. Mas nem vou me incomodar e te contar tudo em detalhes. Homem apaixonado fica burro e depois sofre. Qualquer um poderia escrever sobre isso. Foi meu auge profissional. As pessoas começaram a dizer que eu era genial porque escrevia sobre o sofrimento. Filhos-de-uma-mãe-velha. Eles não entendiam que eu sofria: e eu só conseguia escrever porque sofria e eles não podiam respeitar isso.
Aí passaram a me encontrar na rua e pedir autógrafos. E eu me perguntava porquê. Eles não sofrem? Passei a pedir autógrafos para eles também. Quem sobrevive a tristeza deve mesmo merecer a fama.
Até que não agüentei mais. Passei quase dois anos sem escrever. Todos me esqueceram. As mulheres, os fornecedores de uísque. Eu pude sofrer sozinho. Ah, eu senti a verdadeira felicidade. Sofrer sozinho. Sem escrever. Sem colocar em palavras os sentimentos se esvaem mais fácil. Aí a comida acabou. E eu tive que voltar.
Eu vendi a minha felicidade. Eu vendi as minhas verdades e me sentia na obrigação de mentir mais e melhor. Meus livros foram um sucesso.
Aí eu fui ficando velho. E achei uma mulher que me quisesse de verdade. Nunca esqueci Ceci – ou Amanda, ou Amélia, ou Cibele, nas páginas dos meus livros. Mas entendi que o amor, essa coisa besta que inventaram por aí, não leva a nada. Encontrei uma mulher que quisesse cuidar de mim. Que dançasse a mesma música, que agüentasse as minhas viagens para o lado de dentro, que nem eu mesmo conseguia entender. Jamais me atrevi a dizer que não a amo. E a amo. Mas amor não existe. Então, digo que a amo e ela sorri.
Tivemos um filho. E eu cheguei abaixo do fundo do posso. Colocar uma pessoa no mundo! Absurdo. Eu me senti uma criança inconseqüente, que colocou mais um sofredor nessa vida. Um brinquedinho pra ver se quando eu me visse multiplicado minha dor acabaria. E eu disse isso pra ela. Sou um perfeito imbecil. Nosso filho morreu, aos dois anos. Ela diz que não, mas eu sei que me culpa pela culpa.
Enquanto meus livros vendiam, eu tinha que responder a todo tipo de gente porque escrevia, como era meu processo de criação. Uma coisa ridícula demais. Escrevia porque sim. Criava porque sim. Não se pergunta essas coisas, malditos.
E assim foi minha vida inteira, que você deve ter visto em um canal alternativo, daqueles que ninguém vê. Uma merda de vida. Que agora está acabando.
Quando dizem pra gente que a vida acaba, passa tanta coisa aqui dentro que dá até medo do que vem. Eu sempre detestei essa minha vida, mas nunca quis que ela acabasse. Um masoquismo existencial. Parece que quanto mais se apanha, mas se quer viver pra apanhar mais. A vida, então, deve ser esse eterno tapa na cara.
Então eu resolvi pedir perdão. Perdão a você. E por conseqüência a todo mundo.
Perdão pelo quanto menti. Perdão as mulheres, aos leitores, aos críticos. Perdão àqueles que depositaram em mim qualquer tipo de fé.
Eu quis tanto ser Bukowski, que esqueci que pra amar a todas elas eu precisava amar a mim. Eu quis tanto ser Sartre, que esqueci que para teorizar a tristeza e a solidão eu precisava viver a alegria e a sociedade. Eu quis tanto ser os outros, que esqueci, meu amigo, quem eu era. E no final passei a vida inteira não sendo nada.
Também tenho que pedir perdão a Ceci, aquela mulher que disse que amei. Não cheguei a citar, mas só não fomos felizes por causa da maldita cruz da escrita. Ela me lançava um olhar bonito, e eu escrevia páginas inteiras. E ela se apavorou. Eu podia ter vivido o melhor amor do mundo. E acabei transformando a nossa vida num inferno.
Não sei onde ela anda, mas, meu amigo, transmite meu perdão a ela. Faz ela lembrar de mim só por um minuto com piedade. Ela era um anjo. Sei que me perdoaria.
Claro, na minha lista de perdões está com estrelinhas minha esposa. Ela que me amou tão incondicionalmente, e que recebeu em troca os meus medos todos. Ela me carregou nas costas. E quando as pessoas diziam que eu amava outra, que meus personagens não eram ela, ela respondia a um por um que não se importava: era ela quem estava comigo.
Que um dia ela, que não sabe que merece meus pedidos de perdão, consiga sentir meus apelos.
E o meu maior pedido de perdão é a meu filho, que morreu pela minha falta de amor ao mundo. Que ele saiba que eu o amei. E por isso não pude soltar uma lágrima quando ele foi embora desse absurdo todo.
Enfim, parceiro. Sou um fracasso. E o pior é que as pessoas me tratam como sucesso. Escrevo versos idiotas, invento verdades e todos acreditam.
Então, vou pedir. Meu amigo, parceiro, quase comparsa: me deixa morrer sozinho. Eu e meus personagens. Eu e minhas mentiras. Eu, que sempre fui mais verdade do que qualquer um conseguiria.

9 comentários:

Rodrigo Oliveira disse...

knock down!

Fábio Ricardo disse...

é bacana, tem um tom de sentimentalismo que só os mais bregas sabem apreciar.
e como todo apaixonado é um grande de um brega, a linha foi muito bem seguida ;)

JLM disse...

vc leu o filho eterno, ñ leu?

Fábio Ricardo disse...

bah, vou dedurar pq fugiu do tema. tinha q ter no mínimo 10 mil.

Marina Melz disse...

Fábio, sim, fugi. E você só percebeu pq eu falei.

JLM, não li, não. Recomenda? :)

JLM disse...

vai depender mto ser eram 10 mil caracteres com ou sem os espaços. no meu word dá uma diferença danada esse detalhe.

citei o livro pq lembrou o tom do seu texto, o de alguém querendo confessar os seus pecados de maneira crua e direta, sem desculpas.

Félix B. Rosumek disse...

Marina, eu tinha visto que o texto era pequeno na primeira lida, mas não comentei porque queria ler de novo antes de comentar. Como sou o eterno "advogado de regras", isso tira alguns pontos. ;)

Mas o texto está bom. Algumas coisinhas para revisar, mas pouca coisa. Frases de efeito, cenas, sentimentos, só precisara de um pouco mais de história, talvez, para atingir o tamanho certo.

E eu fiquei o texto todo sonhando que a última frase seria "e por isso que eu te peço, papai noel, nesse natal me traga uma morte sofrida e redentora". Eu ia rir bastante! :D

Félix B. Rosumek disse...

ps: e acho que eu conheço gente bem parecida com esse personagem...

Fábio Ricardo disse...

soh percebi pq tu falou.
mas imagina que sem graça se todo mundo escreve microcontos de 150 caracteres ou 300 caracteres qdo soh podia 100!
mesmo que ngm reparasse.
ao invés de simplesmente um "acho que fugiu do tema", eu acho que no caso, não fez mesmo o que era pedido.
sei lah, eu escrevi e viu q deu 8,5 mil carac. no meu... daí comecei a releer e estudar onde podia aumentar, dar uma trabalhada maior pra fazer ele crescer. tanto q ficou certinho nos 10 mil, nao passou.

a idéia eh fazer o exercício.