sábado, 16 de maio de 2009

Sobre o tempo

Aos 74 anos, já não se tem muita pressa. Mário, ou vô Mário, como gostava tanto de ser chamado pelos netos e crianças que corriam descalças pelas redondezas, acordava todos os dias antes do sol nascer. Mas não porque o trabalho, os filhos ou a vida lhe exigiam. Simplesmente porque era assim que acontecia todos os dias. Seu corpo despertava sempre alguns minutos antes do dia amanhecer.

Os olhos se abriam lentos e, inconscientemente, procuravam por Helena ao seu lado na cama. Mas ela já não estava mais lá. Sentava-se dia após dia na mesma ponta da cama e dava um suspiro discreto, quanse imperceptível, enquanto procurava, tateando com os pés as pantufas azul-desbotadas que estavam o esperando embaixo do colchão manchado. Levantava e estalava as costas. Primeiro, alongando a coluna, cada vez para um lado, com a mão apoiando-se na cintura. Depois, com as mãos unidas na metade das costas, empurrava as costelas para frente. Sentia um prazer indescritível com a sensação relaxante do ato, mesmo sabendo que isso fazia mal para suas costas, já doloridas pelos anos que se passavam depressa. O médico já cansara de lhe dizer, mas mesmo assim, ele continuava insistindo. Depois, era a vez do pescoço. Com a mão por cima da cabeça, esticava com força até sentir o estalo alto. Só então acendia a luz.

Caminhava até o banheiro, que ficava na parte de fora da casa, obrigando-o a passar por um corredor de vento gelado que arrepiava os pelos que lhe cobriam a canela. Tirava a calça de moletom velho e a camiseta promocional de político ou supermercado que serviam de pijama, e ligava o chuveiro no quente. Escovava os dentes, nu, enquanto o banheiro se enchia de vapor. Escrevia sempre algo com o dedo indicador no espelho do banheiro, quando ele ficava embaçado pelo calor. Podia ser uma frase de alguma música que ouvia nos tempos de juventude e dos amores platônicos de colégio, algum lembrete de algo que não podia se esquecer de fazer durante aquele dia, ou simplesmente o nome de Helena.

Deixava a frase ali, para ser apagada pelo próprio vapor que fez com que ela pudesse ser escrita. Dia após dia, os nomes se sobrepondo, invisíveis e esquecidos. O banho era sempre da mesma forma. Quente, terrivelmente quente. A pele avermelhava-se com o contato da água escaldante, enquanto Mário deixava a cabeça baixa pender para frente, embaixo das gotas grossas que explodiam em contato com sua nuca.

O banho era demorado, muito demorado. A água lhe escorria por cada pedaço de pele, corria pelas articulações, pelos músculos frágeis e pelos cabelos grisalhos. Cobria e aquecia seu corpo nu. Um corpo feio, velho, magro e enrugado. Mário olhava para os dedos apáticos e uma lágrima salgada se misturava com as gotas que já lhe escorriam pela face. Lembrava-se das mãos fortes e calejadas que ergueram casas, consertaram carros, plantaram fumo, empunharam armas. Lembrava-se de escaladas, corridas, cavalgadas, pescarias. Do mar, do pôr do sol, das gaivotas, das pipas coloridas, do camargo matinal, bebido ainda dentro do rancho.

Se lembrava de toda uma vida que se passou. Vivida ou não, bem aproveitada ou não, se passou. Seu corpo já não tinha a mesma força, as pernas, destruídas pelo cigarro, já não conseguiam mais levá-lo tão rápido quanto gostaria. Os olhos estavam fracos, míopes e borrados. As costas estavam arquejadas, os ouvidos danificados. O rosto, abandonado. O pulmão, negro como seu futuro, já o alertava que não iria muito longe, em breve, simplesmente deixaria de funcionar. E vô Mário nunca iria poder esquiar, seu sonho de infância, de um garoto que nunca viu sequer a neve. E não veria seu neto caçula se formar. Nem poderia dançar no casamento da neta, a alegria maior de uma época tão bonita e que infelizmente já se foi.

Mário desligava o chuveiro lentamente, e se arrastava já cansado para fora do box. Secava-se e vestia-se ainda coberto pelo vapor que tomava o ambiente e enchia-lhe as narinas. Quando saía do banheiro, via o sol nascer. Sempre no mesmo horário. A claridade surgia por detrás das colinas que delimitavam o vale, jogando os raios amarelos, quase laranjas, para o alto. A luz forte atingia os olhos com força, quando a primeira parte do astro rei se mostrava visível. Mais ou menos nessa hora, é que Mário percebia que estava de pé, no frio do quintal de casa, olhando o sol nascer.

Entrava apressado na casa, se achando meio tolo, e essa sensação o tomava todos os dias. Parecia um jovem sonhador, um bobo apaixonado. Entrava na cozinha de azulejos brancos e azuis e preparava um café. Eram duas colheres de pó, exatamente duas colheres de pó colocadas na chaleira de moccha, quantia que aprendeu nem lembrava como. Enchia de água e colocava no fogo baixo, em cima do fogão.

Esse era o pior momento do seu dia. O momento da água fervendo o café. Ele nunca sabia ao certo o que fazer com as mãos. Esfregava-as compulsivamente, estalava os dedos irritantemente, mas não tinha ninguém lá para ver ou se irritar. Ele as colocava nos bolsos da calça, unia-as em frente à boca e soprava o ar quente dos pulmões venenosos, juntava-as no meio das pernas.

Era um tempo livre que o assustava. O que era estranho até, ao se pensar que todo o seu tempo era livre. Ele não tinha mais nenhuma ocupação, passava o dia inteiro dentro de casa, fazia o que bem quisesse. Comia a hora que tivesse fome, dormia a hora que tivesse sono, chorava a hora que a tristeza lhe esmagasse o peito.

Mas àquela hora, ali, em frente à água fervente, esperando o café transbordar seu aroma matinal, ele não sabia o que fazer. Não era um período de tempo longo o suficiente para ligar a televisão, molhar as plantas ou ir buscar o jornal diário, que esta hora devia estar repousando sobre as rosas de Helena. Ao mesmo tempo, não era algo instantâneo, ele precisava esperar. Esperar e pensar, pois pensar era automático, uma ação condicional ao ato do ser sozinho. E ele esperava, os olhos focados no azul da chama dançarina. E ele pensava, os olhos focados no mesmo azul.

Nunca percebeu que aumentou a quantia de café que bebia todos os dias. Agora, ele bebia o café em dobro. Preparava, todas as manhãs a quantia exata para o seu café e o de Helena. E há dois anos, bebia os dois cafés sozinho, um seguido do outro. O café nunca foi tão amargo, o sol nunca demorou tanto para se erguer no horizonte, a água nunca foi tão preguiçosa para começar a ferver. O mundo nunca girou tão depressa, os dias nunca se arrastaram tão lentamente. O tempo nunca teve tão pouco significado. O tempo nunca teve tanto significado.

Sorvia os goles fumegantes e, inevitavelmente, queimava a língua. O tempo lhe pregava peças. Um gole o queimava, o outro gelava a língua, e quando reparava, já era noite. A tardes, passava cuidando do jardim, das roseiras de Helena que as formigas insistiam em atacar. Ou então dentro do velho galpão de madeira, onde guardava as ferramentas que foram sua principal fonte de renda durante boa parte da vida. Tudo que estava lá dentro era uma preciosidade para o vô Mário. Cada lâmina, cada parafuso, cada foice, cada torno, cada pedaço de cano amarelado pelo tempo. Tudo tinha significado, tudo tinha história. Há quanto tempo guardava tudo isso, já não lembrava mais. Mas o tempo já não era mais o mesmo. As lembranças se confundiam, se apagavam, se estranhavam umas com as outras.

Ele afiava cada uma das lâminas e limpava cada uma das ferramentas, mesmo sabendo que era bem provável que não mais as utilizaria. Seriam deixadas para o filho mais velho, empilhadas em um depósito qualquer, cobertas de poeira e esquecimento. E quando pensava nisso – nas ferramentas cobertas pelo temido pó do esquecimento – sentia a vontade impossível de se agüentar, que lhe acompanhou durante toda a vida. Que lhe perseguiu, enfraqueceu e fez sofrer. Sentia a vontade de um cigarro para encher-lhe de fumaça e dor. O maldito cigarro que lhe tirou a vida, tanto a sua quanto a de Helena.

Helena nunca fumou. Ela não tinha a mínima vontade de provar o gosto do veneno que Mário carregava eternamente pendurado no canto esquerdo da boca de lábios finos. Desde os oito anos de idade, ele era seu fiel companheiro, o mais fiel e presente companheiro que já teve. E que ironia vã fez o destino levar sua Helena antes dele? Sua Helena, passional e passiva, que tragava no ar, a contragosto, a fumaça de Mário, o assassino.

Mas agora, isso já não importava mais. Nada mais importava. O tempo que se passou, as causas dos sofrimentos, os causadores de toda a dor que se fazia presente na vida do velho e esquecido homem. O que importava era que Helena se fora, e Mario não. Ele continuava ali, com seu tempo de sobra, mais tempo para sentir saudades e sofrer calado e abandonado pelos erros que o passado insistia em lhe revelar todos os dias. O que importava era apenas o dia trazendo o sol e a noite o levando embora. Os almoços solitários no bar sujo e vazio da esquina de casa, os cafés quentes e frios. Seus cafés, por mais quentes que fossem, sempre tinham o gosto frio do café solitário. Os programas sobre a vida da natureza selvagem que a televisão mostrava durante as longas horas da tarde afundado no sofá, a liberdade dos animais selvagens, a falta de razão no viver daqueles seres. A falta de razão no viver.

Nada mais fazia muito sentido para ele, por mais que tentasse encontrar um significado para os fatos cotidianos da vida. Não iria se matar, isso era certo. Não havia o menor sentido em causar um alvoroço tão grade por uma coisa que já nem importava mais. Se já ia morrer em breve, para que trazer tanto sofrimento para os que ficariam? Então ele continuava, quieto e silencioso, contando os dias que se passavam e o aproximavam da morte. Contando o tempo, que às vezes não se fazia mais passar. E ele lembrava do jovem atlético que jogava bola na praia, da bela garota que lia sob o sol forte, dos passeios de mãos dadas nas manhãs de inverno, do crescimento da cidade ao seu redor, da pressa dos homens de gravata, do tempo.

Do tempo que passou tão depressa. Do tempo que insistia em não passar.

6 comentários:

Marina Melz disse...

Sempre o café. Sempre o café. Gostei. :)

JLM disse...

lembrou insônia, do stephen king, conhece?

Rodrigo Oliveira disse...

Verdade, lembra o personagem do Insônia mesmo. Tudo bem, sem o carinhas do Acaso e do Desígnio, mas uma boa lembrança do JLM.

Fábio Ricardo disse...

hum... eu não li Insônia, então foi sem querer, hehee. nem sei do que vcs tão falando =P

Félix B. Rosumek disse...

Como cena, está muito bem escrita, detalhada, dá até para se sentir o velhinho esperando a água ferver (embora, no meu caso, seria mais provavelmente a água do miojo).

Como texto longo, tem uma coisa que eu senti um pouco no texto da Marina e aqui foi mais evidente. Para manter a atenção do leitor por várias páginas, teria que ter mais "história", que os acontecimentos evoluíssem um pouco mais.

Este tipo de texto reflexivo pode ficar meio arrastado quando o tamanho é maior. Teria ficado perfeito se fosse um texto mais curto, pois a cena está realmente bem montada.

Mas está um bom texto, pode deixar!

小彬彬Bing disse...

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