quinta-feira, 7 de maio de 2009

Traje social

Na zona sul da cidade, um espelho refletia as curvas dela, acentuadas por um tecido leve. O vestido era longo. Uma fenda mostrava quase toda a perna torneada. O decote era discreto, mas não havia como esconder os fartos seios. Maquiava-se. Os cabelos estavam soltos e atingiam a metade das costas dela. Por trás deles e do tecido lustroso do vestido, uma tatuagem. As cifras de uma peça de Chopin. 

Nele, era no braço que as notas estavam marcadas. A camisa e o paletó escondiam a obra de Chopin que os pais ouviam quando decidiram qual seria seu nome. No bairro da zona norte, ele se apressava, procurando as chaves do carro que insistiam em sumir. Queria chegar na mesma hora de sempre, queria que ela estivesse na fila para que pudesse a enxergar de verdade, sem a meia luz que precedia o espetáculo ou o quase escuro que inebriava o ambiente quanto o piano invadia os ouvidos e alma dos presentes.

Há meses, os dois se encontravam todas as noites. A temporada de uma peça no teatro Municipal estava acontecendo. Nunca sentaram ao lado um do outro. Ele tentou trocar, sem que ela soubesse, o bilhete com um senhor que tinha o número seguinte da cadeira dela. Era quase automático buscá-la em meio às trezentas e cinqüenta cadeiras. Quando a encontrava, via os olhos negros sempre em sua direção. 

Chegaram a porta do teatro. Não estavam atrasados, nem adiantados demais. Os corredores ecoavam seus passos, de frente para o trinco, num olhar de consentimento, resolveram entrar. Na platéia, cadeiras vazias. As cortinas do palco abertas. Um homem só, lá, onde deveriam estar todos os tenores com seus fraques. Com uma vassoura na mão, ele anunciou que a temporada tinha terminado.

Em silêncio, foram até a escadaria do teatro. Olharam-se. Ela virou as costas e se foi. Assim como a arte, a temporada da paixão também chegou ao fim. E ela sabia que para ser lembrada como música, nada poderia quebrar o silêncio da partida. Mesmo que na pele dos dois, estivessem fadados à mesma peça. Pra sempre. Sem saber. 

4 comentários:

Rodrigo Oliveira disse...

gostei. a historia é bem bacana. achei o lance das tattoos até sem necessidade 9ou não entendi bem). Mas a cena deles chegando e encontrando o tiozinho varrendo valeu tudo.

Fábio Ricardo disse...

nao mesma linha q o rodrigo, tbm vou me meter.

acho q seria ainda mais forte se ele (ou ela) tivesse chegado lah soziho, e soh entao descoberto q a temporada a acabou. por issio, talvez nunca mais a veria.

mas eh uma boa historia.

Félix B. Rosumek disse...

Eu achei legal a parte da situação inusitada. Os dois se encontraram ali, o que esperar, um final feliz? Não, a fantasia se desfez, até mais, desconhecido. Talvez se apenas um dos dois tivesse ido e ficado triste, seria uma história de corno mais comum (embora também com seu valor).

Félix B. Rosumek disse...
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