quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O cínico e o hipócrita

- Olha lá o cachorrinho! Tadinho... como é que pode? Eu não entendo essas pessoas, crápulas, nojentos. Só porque pegam um pouco de água em casa, abandonam o podre coitado ali, amarrado num poste, sem comida nem água, sofrendo sozinho e esquecido. Monstros nojentos! Como podem ser tão podres a ponto de fazer isso com o pobre animal? Onde estão os donos desse cachorrinho lindo?
- Ali embaixo daquela casa destruída pelo deslizamento.

6 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

eu vi essa reportagem!

interessante que "cínico" é uma palavra que eu nunca soube definir direito (na sua forma figurada, não relativa à filosofia grega ou cães). para mim, refere-se a um certo posicionamento diante das coisas (que eu também não consigo definir direito). porém, toda definição de dicionários fornece significados diferentes, como obsceno, descarado, impudente, etc. (até dá a impressão que cínico é sinônimo de tarado...). no caso desse teu texto, transparece na segunda frase uma acentuada nota de sarcasmo. seria sarcasmo uma variedade do cinismo? sem dúvida há alguma sobreposição aí, mas não uma igualdade. talvez o sarcasmo sempre implique em uma certa dose de humor (sim, há humor nesse texto - humor negro, sarcástico). já o cinismo não, ele pode ser frio, sério, sem humor algum. estou falando isso pois são coisas que eu já tinha pensado, queria saber a opinião do pessoal a respeito.

quanto ao texto, o significado alternativo de cínico como "relativo a cães" torna ele um tanto quanto irônico. sarcástico, talvez?

fabioricardo disse...

Realmente, Félix. Acho que o cinismo e o sarcasmo meio que andam de mãos dadas. Agora que você falou é que eu reparei que me encaminhei muito mais para o segundo do que o primeiro.

JLM disse...

Só não percebi aonde entra o "hipócrita" na história.

Rodrigo Oliveira disse...

massa. curti esse texto tb. curto e grosso. como todo bom cinismo.

Vivi Bastos disse...

Olhar aguçado e um viés certeiro. Hipocrisia e cinismo...não há combinação mais plausível inclusive pela tênua contradição que as separam. A vida transita entre ambas.
Seu texto me lembrou uma indagação que li há um bom tempo (Perdoem-me por não lembrar a fonte):
Aliás quem não consegue suportar como perfeito cristão as desgraças alheias?

Muito bom mesmo!!!!

Anônimo disse...

Começa o texto com um tom hipócrita, de alguém que "parece" se importar com a desgraça dos outros, parece que isso lhe causa dor, mas na verdade seu prazer é poder fingir essa dor em palavras como aquelas, esconder sua face em discursos comoventes. No final uma frase cínica, indiferente, fria, insensível, de quem não disfarça sua postura inabalável, daquele que não pega o sofrimento dos outros pra si. Parabéns pelo casal! interessante!