quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Tempo, um ano só

Acabara o mundo, afinal.

Tudo, tudo; tudo aconteceu, como previsto e profetizado outrora. Aqui e no céu, fogos queimaram a todos. Uns em comemoração. Outros, queimando almas, dizimando pessoas sem dízimos. E queimavam também os cães de todas as raças. Artistas viravam fumaça numa fogueira pior e mais quente do que aquela que queimou Joana D’Arc. Leões, tigres e macacos darwinianos sorriam, ao lado de Deus. Talvez bebessem um líquido, uma espécie de drink; possivelmente meio amargo, como o nosso Campari. Porque dava para notar uma careta disfarçada, a cada golada. Em cada sorvida. Os lábios deles tentavam sorrir, afinal era feita a vontade e realizada a vontade d’Ele. Devastada a terra nostra, a linda Amazônia, e o Tibet, encontravam-se felizes lá no mais alto dos céus. Volto ao artista, que ardia resistente. Ele chamou por Lúcifer, num pedido inusitado. Não, este artista, um escritor. É, um escritor! Ele queria, num último momento infernal, ter com o cara. Já estava queimando na ira de um deus que nunca pisara num tablado. E, triste, entre Shakespeare e Isolda, o artista prometia aos seus, que queimaria cada célula de seu corpo, buscando entender tantas ‘glórias’ sem razão e poesias. Ao lado do escritor, um ladrão sorria animado, e, vez por outra, vociferava com o cenho franzido, que ele também era mais o Barrabás! E enquanto isso, uma criancinha rebelde apontava o único dedo da mão, exclamando: “Reencarnação!”

Jamais imaginara tamanha fogueira, o nosso artista. Os olhos, pretos de fuligem, viam cavalos alados, relinchando em orações. Ele estava apavorado. De verdade. Seu corpo doído, e as mãos sem canetas, tentaram conferir se aquela água quente era seu mijo. Constatou que era a única água que teria contato. Além das lágrimas negras, evidentemente. Olhou para o céu. Mas não via o céu. Eram vários céus! Uma zona maior que a Vila Mimosa, lá do Rio de Janeiro. Todavia, ainda assim, ele, o escritor, resistia. Haveria, pensou imerso em quente angustia, ele haveria de cumprir e honrar sua palavra. Falaria com Lúcifer, antes de virar pó.

Porém.

Detido nesta palavra, percebeu a tempo, que era humano demais. Falho e inconstante ele era, pensou, fechando os olhos úmidos. E também que blasfemava, por ter razão e poesia em seu ser. Pelos seus cálculos ensandecidos de calor real, achou que já passara um ano ardendo na gigantesca e dantesca fogueira. Um ano esperando ter com o Diabo. O tal do Lúcifer. Até que sua vista foi nublando. Então, ele olhou envergonhado para todos os artistas ao seu redor. Quer dizer, as cinzas deles. E mais uma vez chorou. E urinou nas coxas. Estava chegando seu fim, por fim.

Entretanto.

Outra palavra que o animava. Entretanto, eis que um vento espiritual aliviou seu curtido rosto. Um frescor último secou suas malditas águas. As últimas águas que sentia o artista. Com os olhos semi-serrados, ainda vislumbrou assustado, um anjo estranho que, com apenas a asa esquerda, soprava seu alívio, na verdade o alívio dos dois. Queriam fazer contato, pensou, um tanto esperançoso, o ex-poeta. E, num sopro quase divino sussurrou:
- És o Lúcifer, enfim, ou estarei eu, em agonia por um ano, sem comer e beber, queimando num inferno insensato?

- Sou eu – respondeu aquele anjo de asa quebrada. A direita.

- Tem certeza que não escrevo uma poesia?

- Sim. Eu tenho. – e olhando ao redor, todos os céus desfeitos, declarou: - Porque também eu, briguei por vocês. Mas creio que perdemos...

E neste exato momento, o Universo escutou, em uníssono, todas as vozes matrixianas, de todos os artistas:

- Amém!


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Daisy Carvalho
Leitora de Jacarepaguá (RJ)

6 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

olha, só posso dizer uma coisa: MUITO BOM, em todos os quesitos. a linguagem foi espetacular, intercalando poesia com palavras cruas. o texto foi cheio de boas passagens e o tema foi perfeito. pelo menos para mim. ;)

Rodrigo Oliveira disse...

mto massa. Faço eco ao Félix. Curto o estilo, a linguagem, as imagens. Mto bom. "blasfemava, por ter razão e poesia" pra mim foi fantástico e resumiu toda a cena.

Carla Silva e Cunha disse...

voltei para ver as novidades...é sempre um prazer passar por aqui.

Boa semana

carla

http://www.arte-e-ponto.blogspot.com

Anônimo disse...

Queria felicitar a autora do texto “tempo, um ano só” pelo modo que o escreveu…
Confesso que o li várias vezes, pois achei-o rico em pormenores.
Digamos que este texto me fez pensar…
Gostei das alternâncias entre realidade, história, lendas, mitos, acho que no seu todo ficou mágico e poético.
Poético, no sentido de, por vezes, confuso (para mim a poesia nem sempre tem de seguir uma lógica). Há uma determinada altura em que não se percebe quem é Deus e quem é Lúcifer ou se quem escreveu o texto quis que eles se fundissem “macacos Dawinianos sorriam ao lado de Deus”.Jamais Deus riria deste quadro a meu ver.
O artista estava nesta fogueira infernal há um ano…será que esta fogueira não era a própria vida dele?

Parabéns Daisy gostei…

Paula

Daisy Carvalho disse...

Félix - Muito obrigada pelo comentário. Fiquei muito feliz. Beijo.

Rodrigo - Agradeço a oportunidade. Foi muito gratificante escrever por aqui. Beijo.

Paula - Obrigada, sua interpretação me deixa em estado de alegria, pois arte é isso: ela vem com liberdade para interpretações, assim, você atestou minha pretensão de escrever um texto-arte. Gostei de sua visão. Muito. Beijo.

JLM disse...

Adorei a formatação, ;)

1000 bjos.