sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Flores na cabeça

Começou quase imperceptível. Só uma vibração entre a estrada de terra cercada de flores e o céu azul primaveril. As casas de tijolos à vista à beira da rua guardavam segredos silentes cercados de pétalas e canteiros e aromas de bolos de banana com farofa. Foi muito aos poucos que a melodia se fez, de fato, audível. Um assobio que saltitava alegre nas notas de diapasão, embalando as flores numa dança discreta na brisa suave.

O assobio nascia num vão entre lábios volumosos de tom café, contornados por uma barba baixa que cobria um rosto de olhos curiosos. A mochila nas costas jingava com o andar cadenciado guiado por passos certeiros de botas de solado grosso e couro resistente. A camisa listrada retribuindo as cores das flores que escoltavam o caminho.

Parou à sombra de uma árvore próxima a uma casinha de tijolos aparentes e floreiras nas janelas, admirando o telhado pontiagudo. Cessou o assobio ouvindo com prazer o silêncio da rua decorada e o som da brisa nas folhas. Sentou à beira da estrada, deitou ao chão a mochila e bebeu a água fresca de um cantil de alumínio, dividindo o espaço com as borboletas nas flores logo ao lado.

Se perdeu na delicadeza das asas que nem percebeu a chegada da criança loura que saltitava saindo do jardim bem aparado da casa. Foi o riso da menina que o despertou. Quando a criança o viu, hesitou desconfiada.

- Oi. Foi ele quem cumprimentou, jovial.

A criança não respondeu e ficou brincando à distância. Ele riu e retornou a atenção às borboletas, que vinham lhe brincar nos braços. Tocou com a ponta do dedo as asas coloridas e viu o inseto levantar voo até pousar-lhe na cabeça. Mais uma risada infantil lhe chamou a atenção.

- Parece um laço.

Divertiu-se a menina loura, apontando para a borboleta na cabeça do forasteiro. Ele riu com o chiste e a menina se aproximou.

- Você é um vagabundo? - perguntou a criança.

Ele espantou-se mas riu mais uma vez. Mas não. Ele era um viajante.

- E o que faz um viajante?

- Viaja - respondeu sorrindo.

Colheu uma flor amarela e colocou no cabelo louro da menina.

- Pronto. Agora você também tem um laço.

Ela sorriu. Mas com olhar preocupado para a porta da casa de tijolos aparentes disse:

- Meu pai não vai gostar disso. Ele diz que as flores tem que enfeitar a estrada.

- As flores ficam bonitas nas estradas sim. Mas eu digo que elas deveriam enfeitar mais as cabeças - respondeu o rapaz com calma.

- Ora, onde já se viu flor na cabeça. Lugar de flor é na rua. Ou na frente de casa.

- Mas aí as borboletas não vão querer visitar a sua cabeça. No máximo vão passar pela sua rua, mas não vão pousar em você.

- Hum... Meu pai nunca falou nada sobre borboletas.

- Ele não tem flores na cabeça, tem?

- Não... Mas você também não tem flor na cabeça e a borboleta pousou em você.

- É que quando você põe uma flor na cabeça, um pouquinho dela fica ali pra sempre. Como se fosse o perfume. E as borboletas percebem.

- Eu queria ter mais flores na cabeça. Mas aí meu pai vai brigar. Elas tem que ficar na rua.

- Talvez, se mais gente colocasse flores na cabeça, não precisasse tantas flores na rua. As borboletas viriam da mesma forma. E o perfume ia estar sempre com a gente. E de tanto a gente andar por aí, com flores na cabeça, elas iam acabar espalhando pólen mesmo. E daí, sem a gente nem perceber, logo iam ter flores espalhadas por todas as ruas. E a gente nem ia perceber que plantou.

- Vou fazer como a minha mãe, então. Ela tem um arco de cabelo cheio de flores. Vou usar sempre!

- Mas aí não adianta. No arco as flores são de plástico. Não são de verdade. Elas só parecem flores. Mas se você olhar de perto, vê que elas não tem perfume. E as borboletas não vem.

- É melhor eu voltar pra dentro. Meu pai não gosta que eu fale com vag - estranhos.

- Tudo bem. Foi legal conhecer você, viu?

A menina saiu correndo em direção a casa. O rapaz levantou-se, colocou às costas a mochila e seguiu o caminho pela estrada de barro com algumas borboletas no seu encalço. Saiu assobiando a melodia alegre que ia desaparecendo da vizinhança das casas de tijolo à vista e cheiro de bolo de colono. A melodia foi baixando, baixando, sumindo, sumindo até deixar no ar só aquela vibração quase imperceptível, deixando ouvir o som do vento nas folhas e de uma criança levando bronca por ter arrancado uma flor do jardim.

4 comentários:

Fábio Ricardo disse...

achei bonitinho. Se fosse do Félix, ele ia fazer a criança ser assassinada por tal malcriação. (sim, eu imaginei a cena).

Marina Melz disse...

Cena imaginada em cada detalhe. Meio Marinístico esse texto, não?

Félix B. Rosumek disse...

Sim, isso foi gay.

Mas foi bonitinho também. O detalhamento de toda a cena foi o ponto alto.

Acredito que tenhas percebido isso depois, mas a mudança na ordem das falas em "- Não... / - Mas você também não tem flor na cabeça e a borboleta pousou em você" causa alguma confusão, embora seja fácil de entender que a segunda fala também é da menina.

E, Fábio, eu não precisaria ter matado niniguém. Apenas faria uma pequena mudança nesse trecho:

"- E o que faz um viajante?

- Viaja - respondeu sorrindo, com o baseado na mão."

:D

Rodrigo Oliveira disse...

hum... gay... tá, meio florzinha (!) mesmo, mas eu achei q o subtexto ia passar mais claro. Mas não convém comentar isso ainda (ou aqui).
Qto ao "não" que o félix comentou, foi desatenção. Será corrigido, só tirar aquele travessão. valeu