sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O ritual

- Ezdras, é chegada a hora.

O velho sábio se levantou, tateando com a ponta dos dedos enrugados o tampo de madeira da mesa em sua frente. O aprendiz o esperava segurando a cortina que dividia o aposento de orações.

- Tudo bem com o senhor, mestre?

- A noite está perfeita, Athomo. Estarei pronto em um segundo.

Ezdras passou as mãos grandes pelos cabelos brancos. Sentiu os fios se soltando da pele e escapando por entre os dedos. Baixou a cabeça em vão, apenas para imagina a dança ébria que fizeram até tocar o solo arenoso da cabana. Há muito os olhos haviam deixado de enxergar as maravilhas das Terras Selvagens, cobertos por uma película de pele esbranquiçada.

O ancião caminhou até a estante empoeirada na parede oeste e pegou suas vestes. Cobriu o corpo castigado pelo tempo com as mantas sagradas dos Deuses, baixou a cabeça e fez uma rápida prece. Caminhou para fora de seus aposentos, onde já ouvia o forte barulho de água corrente. Athomo o ajudou a acomodar-se no trono de madeira que, carregado por oito homens serviria de transporte até o local do ritual.

Todos os sacerdotes e membros da realeza participavam do ritual milenar. O povo aguardava ansioso às beiras do rio Gouoba, olhando para o topo da Grande Cachoeira. Ezdras havia herdado todo o respeito de seu pai, o velho ancião da vida, já há muito falecido. Hoje, aos 86 anos, era ele que deixava este mundo para unir-se aos sábios que os esperavam do outro lado.

Os sacerdotes menores aproximaram-se e ergueram o trono de Ezdras. Athomo acompanhou todo o ritual de perto, com um olhar distante. Não foi permitido que nenhum dos nobres falasse, a nenhum não-místico era permitido usar palavras dentro da Grande Cachoeira. Athomo deu a ordem: os sacerdotes colocaram o trono na areia e Ezdras levantou-se. Não se despediu, não agradeceu e não reclamou de nada. Apenas fez uma prece.

O grande sábio caminhou ao terminar suas palavras, com as velhas sandálias arrastando no chão. O rastro de seus passos ficaria lá até o vento apagá-lo por completo. Só então a Grande Cachoeira estaria novamente aberta para a população. Não se ouviu nenhum choro, nenhuma respiração. Apenas o som de água corrente, cada vez mais ensurdecedor. Ezdras caminhou, concentrado em seus passos apenas, até a borda. Parou a poucos centímetros do penhasco, esticou a mão direita para a frente e murmurou duas palavras. Nunca se soube quais foram as últimas palavras do velho sacerdote.

Com mais um passo, Ezdras deixou este mundo.

A população comemorava ao ver o corpo do sacerdote tomar os céus, sabendo que este ano a colheita voltaria a ser abençoada pelos Deuses. Athomo assumiria em uma questão de dias. Nunca mais se falou o nome de Ezdras naquela vila. E por muitos anos, a paz voltou a reinar.

7 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

Misturou cultura esquimó com nomes de diferentes origens para ober um bom resultado final. Gostei da idéia e da narração. Uma curiosidade é saber se a escolha dos nomes dos dois personagens principais (um de origem hebraica e outro grega) foi no escuro ou intencional. Falo isso porque, embora o texto pudesse perfeitamente se passar no mundo "real", essa combinação exótica deu um leve tom de fantasia à história.

Fábio Ricardo disse...

Bem, a etnia dos nomes não era de meu conhecimento, mas não posso dizer que a escolha foi "no escuro". A história é para se passar num mundo de fantasia mesmo, sem nenhuma intenção de ser no mundo real.

Athomo, para mim, remete aos cavaleiriços, ajudantes, prestadores de serviço dos nobres. Por isso o utilizei. E Ezdras logo bate em minha mente com um elfo dourado, não sei bem porque. Por isso trabalhei a imagem dele, mesmo deixando claro que falava sobre um humano. Mas foi nessa imagem que me baseei para descrever o personagem.

E Ezdras tbm é o nome do personagem cego do filme "7 vidas".

Também é desse filme a inspiração para uma história onde o personagem principal se sacrifica pelo bem dos outros.

Félix B. Rosumek disse...

Athomo - embora não com a grafia exata, lembra bastante a palavra grega que gerou o "átomo"

Ezdras - com a grafia um pouco diferente (Esdras), um personagem importante da tradição hebraica, com um livro na bíblia.

Mesmo com pequenas diferenças, a ligação está aí. Mas interessante saber que a inspiração foi outra.

Thiago Floriano disse...

sinceramente, vejo muito mais elementos de um mundo de fantasia do que da idade média histórica... também é difícil imaginar alguém chegando aos 86 anos naquela época, e ainda mais com força pra ficar de pé. mas isso faz sentido na verossimilhança interna do texto.

Fábio Ricardo disse...

Sim, sim, é a Idade Média de um mundo de fantasia. O exagero na idade é justamente para mostrar que ele era um ancião protegido dos deuses. Praticamente se decompondo vivo, ficou de pé com a força mística, até chegar a hora de sacrificar-se para dar lugar a um novo sumo-sacerdote.

Félix B. Rosumek disse...

Trecho extraído da Bíblia Sagrada:

"Em Tagmar, devido a melhor compreensão da natureza e da disponibilidade da mágica o tempo de vida dos
seres humanos é muito maior que o de um ser humano da Idade Média de nossa realidade, chegando a cerca
de 80 anos."

:D

Rodrigo Oliveira disse...

De novo, JAAAAAAAAR!
Agora, o lance medieval eu achei que passou mesmo ao largo. Nem que fosse mais nas descrições acho que dava pra evidenciar mais. Mesmo optando pela Fantasia Medieval, poderiam ter mais elementos caracterizadores do "medieval", especialmente para os não iniciados na Ordem do Tomo Vermelho.