domingo, 6 de setembro de 2009

Maná

Não havia, no campo, uma espiga madura. Não havia centeio a colher. Não havia raiz sob a terra que não estivesse congelada e morta. Havia apenas uma vastidão branca donde brotavam os ciprestes mudos, como gigantes em pedras de sal. O campo, branco, elíseo de nuvem baixas que cobriam o solo. Da neve nascia apenas o nevoeiro. Uns telhados brancos de palha, com as paredes de barro guardando um silêncio quebrado apenas pelo ronco das barrigas vazias. O único calor brotava do alto. Da presença divina que se irradiava das paredes de pedra dos santos padres. Calor, alimento, proteção. Por trás dos muros distantes subia a fumaça quente desprendendo o cheio do pão. E nas choupanas de barro, palha e neve, brotava a alegria por um deus misericordioso e seus santos homens. Aos poucos, como animais em fins de inverno, alguns bípedes saíam das tocas, envoltos em peles de magros animais padecidos, tentando afugentar o frio cobrindo o próprio lombo, envolvendo-se de esperança e fé em nosso bom senhor.

Eles vinham de todos os pontos. Brotavam de casas que mal se viam, cobertas de neve que estavam. As canelas finas deixando profundas marcas na neve, só não mais fundas pelo pouco peso dos corpos. Iam deixando atrás de si pegadas, como que rastros para retornar às casas escondidas no campo branco. E subiam a escarpada colina guiados pelo calor divino que emanava do santuário. O ar frio parecia já carregar os aromas que estavam por vir. Aqueles pontos pardos aproximavam-se devagar, em meio à neve densa. Iam se acercando do monastério que se elevava, acima da encosta, acima da neve, pairando acima do mundo. A própria natureza parecia respeitar aquelas muradas sagradas. A cada passo, os pontos pardos se aproximavam recitando suas orações, pedindo bênçãos em voz baixa, sem se atrever a levantar os olhos aos céus. Miravam apenas a neve que pisariam no próximo passo, enterrando até as canelas na terra sepulta. Sem dizer palavra, iam aproximando-se uns dos outros à medida que chegavam rente aos muros. Como um rebanho bem guiado pela mão do Pastor, circundaram as muradas à distância, até chegar à retaguarda do enorme baluarte de fé. Aproximaram-se das paredes de pedra sem olharem-se nos olhos. Tocaram o muro de pedra em oração. E só então ergueram o olhar para o alto da amurada. As portinholas de madeira, no alto da construção, estavam ainda fechadas mas o cheiro do maná já anunciava a redenção.

Um rangido alto anunciou a chegada. As portinholas se abriram liberando um vapor branco e aquecido, como o calor do senhor nosso deus e as nuvens de seu palácio celeste. E de lá choveu o maná sobre os fiéis. Uma bênção em meio ao inverno. Uma cornucópia donde brotavam os manjares do éden. Cascas, cascas de todos os tipos! Tocos de raízes, pontas de frutos escurecidos. Grãos esparsos e miolos de espiga. Frutos espremidos, muitos sem vermes. E o rebanho bem disse o senhor que lhe verteu maravilhas.

No alto da amurada um anjo olhava benevolente, com armadura brilhante e lança de fé. Dum odre de couro comungou por aqueles lá embaixo, sorvendo o sangue de nosso senhor Jesus Cristo, celebrando a união entre os homens e os céus. E viu retornarem os pontos pardos às suas tocas, afundando os pés nos mesmos buracos na neve que deixaram ao vir ter com o Senhor. Retornaram com os braços segurando o alimento da semana e a certeza de um deus benevolente que vertia da pedra o maná para os homens de bom coração.

Do alto da colina branca, o monastério sagrado via o campo voltar à quietude invernal. Como se ninguém tivesse por ali passado, exceto pelas pegadas na neve e um ou outro corpo que não conseguira retornar para a toca. Tanto uns quanto outros, seriam em breve recobertos pelo sepulcro branco e sagrado do deus misericordioso e tornariam à terra e ao abraço do pai. A fumaça quente e cheirosa saía do monastério acompanhada do canto gregoriano abençoando cada um dos casebres soterrados em neve colina abaixo. Dentro de cada um deles, as barrigas roncavam em louvor ao Senhor.

Updated. Conforme comentários.

4 comentários:

Félix B. Rosumek disse...

Opa, voltei a ler um texto muito bom no Duelo, vejam só!

Gostei bastante da abordagem realmente medievalista da cena. Embora dê para perceber ironia na narração (intencional ou acidental?), foram expressos os pensamentos que imagino serem os reais daquelas pessoas naquele contexto. Até o do guarda, que facilmente poderia virar um "vilão" numa abordagem whiggista, mas este não foi o caso.

Como comentário adicional, uma coisa que eu já tinha salientado em outros textos teus, é o uso dos tempos verbais diferenciados (presente nas primeiras frases, depois tudo passado). Esse uso é intencional? Causa uma impressão diferente ao leitor a sua localização temporal em relação à narrativa. Eu usualmente acho que a coerência deve ser mantida. Mas, neste caso, foi por achar que as primeiras frases ficariam melhor deste modo? Ou dar a impressão de que o cenário inicial é contemporâneo do narrador, independentemente dele contar uma situação já passada?

Rodrigo Oliveira disse...

Já coloquei em outros essa mudança temporal propositalmente sim. Naqueles casos, com o objetivo de deslocar o leitor e mudar o distanciamento da cena. Não foi o caso aqui. Faltou uma revisão final pra ajustar. Valeu o toque. Aqui pro Duelo vou deixar assim, ao menos até a votação. Mas vou repassar o texto com calma e salvar a versão revisada. Bem observado. E qto a ironia, o desafio acho que era esse. Deixar com ela transparece naturalmente, pra nao parecer um autor falando (e julgando) o narrado. A ironia, de fato, creio e espero, não estão no autor. Estão no leitor.

Félix B. Rosumek disse...

Acho que essa isenção do narrador foi quase perfeita. Localizei três pontos que fizeram a ironia emergir de forma menos sutil: o uso da expressão "bípedes" (que embora seja adequada e teoricamente neutra, fica difícil imaginar alguém aplicando ela nesse caso com isenção); a exclamação no "Cascas, cascas de todos os tipos!" (uma das melhores sacadas do texto, mas a exclamação faz a frase ficar carregada de ironia); e o "fé em nosso bom senhor amém" (o "amém" aqui me soou bem irônico, mas é mais difícil explicar por que. Se tivesse uma vírgula separando ele, por exemplo, a minha leitura teria sido outra).

Rodrigo Oliveira disse...

O bípedes, de fato, mais do que forçados (que nem achei tanto) ficou desnecessário. Até porque o termo "tocas" garante o tom desejado. Vou rever isso. Em alguns pontos é possível simplesmente tirar o termo sem prejuízo, em outros um pequeno ajuste lexical resolve. o "amém" ficou sobrando mesmo. provavelmente o texto começou com um outro tom (mais explícito) e depois que as coisas ficaram mais veladas, esse amém já não condiz mto o resultado final. será excluído. As cascas, por outro lado, não serão mexidas. A exultação é aqui necessária (ou ao menos desejada) pelo primeiro contato com o Maná. mais do que o narrador (em tom ironico) (ou tanto quanto ele) os personagens (em tom sincero) justificam a frase e a exclamação, acredito. o texto deve exprimir a exaltação, mesmo não sendo narrado pelos "bípedes". Nesse caso, fica. A ironia talvez esteja mais explícita, em quem lê (e claro, no autor que tinha sim essa intenção e não pode se eximir por completo no tramar da narrativa).